quinta-feira, 21 de novembro de 2013

5 - REESTRUTURAÇÃO DO NÚCLEO COORDENADOR DO GAG


      APRESENTAÇÃO DO NOVO NÚCLEO COORDENADOR
DO   GRUPO DE AMIGOS DA GORONGOSA
- G A G -

Por se ter verificado alteração na composição do Núcleo Coordenador (NC) do GAG, por demissão de dois dos seus 6 membros, os restantes 4 no activo tomaram a iniciativa de convidar alguns Amigos da Gorongosa que tiveram ou têm fortes ligações ao Parque, para uma reunião que teve lugar no dia 27 do passado mês de Outubro, na qual foi discutida a situação do GAG face às dificuldades de dar continuidade às suas atividades de divulgação da Gorongosa e realização dos habituais eventos anuais comemorativos dos aniversários do Grupo, limitados a um tão reduzido número de membros.

Foi  acordado nessa reunião aumentar consideravelmente o número de membros e dividir o NC em dois setores, sendo um composto por membros ativos e outro por membros colaboradores.

Foram  integrados no NC Ativo aqueles que se disponibilizaram a participar nas tarefas acima indicadas ocorrendo elas em qualquer ponto do país. No NC Colaborante ficaram integrados os que, por diversos motivos, só podem colaborar nos eventos quando estes se realizem na região das suas residências.

Ficou assim composto o Núcleo Coordenador:

NC ATIVO

1 - Maria de São José Santos
2 - Graça Moreira
3 - Vasco Galante
4 - José Canelas de Sousa
5 - Fernando Gil
6 - Celestino Gonçalves
7 - Luís Fernandes

NC COLABORANTE
1 - Zilda Fernandes
2 - Albano Cortez
3 - Manuel Romão
4 - Jorge Faria
5 - António Sequeira Mendes

No "Perfil e Objetivos" do GAG passam a constar algumas normas anteriormente não previstas e que também foram acordadas na mesma reunião, relativamente ao funcionamento do NC e à organização dos eventos.

Seguem-se as fotos-retrato dos membros do NC reestruturado,, seguidas de breves referências pessoais para melhor identificação das suas ligações do Parque Nacional da Gorongosa:

1 - NC ACTIVO


Maria de São José Santos - Professora. Visitou demoradamente o PNG nos anos  de 2006, 2007 e 2008 e acompanha de perto a evolução dos trabalhos de restauração ali em curso por parte do Projeto de Restauração financiado pelo americano Greg Carr.




Graça Moreira - Reformada do Secretariado da Universidade de Braga. Viveu na Beira desde os 3 anos de idade e visitava com frequência o PNG com os seus familiares.




Vasco Galante - Diretor de Comunicação do Parque Nacional da Gorongosa desde 2005




José Canelas de Sousa - Diretor comercial, reformado.  Foi
      Funcionário superior  da SAFRIQUE e último diretor desta  
      empresa que foi considerada na época a maior empresa de safaris
        de África (caça e observação da vida animal). Colaborou
          diretamente com o PNG devido aos cargos exercidos na mesma
           empresa (anos de 1970 a 1978),  que era concessionária da
             exploração do acampamento turístico do Chitengo  e também
              efetuava safaris contemplativos no Parque.




Fernando Gil -  Capitão do exército, reformado, natural de
                     Moçambique. Foi visitante assíduo do PNG nos últimos anos do
                    período colonial, quer como colaborador, quer como visitante.
                    
                     

            Celestino Gonçalves - Técnico de fauna, reformado. Exerceu
                   funções em Moçambique de 1952 a 1990.  Coadjuvou os
                   administradores não residentes do PNG de 1963 a 1967 e os
                   diretores dos Serviços de Fauna Bravia de 1969 a 1982.
                   Foi administrador do Centro de Formação Agrária 
             de 1982 a 1990.



                 
       
  Luís Fernandes -  Técnico de fauna, reformado. Exerceu funções
                    no PNG de 1963 a  1975, atingindo o cargo de adjunto de
                                             administrador. Depois de regressar a Portugal e durante muitos anos                                             exerceu funções ligadas à fauna bravia da região centro do país.



2 - NC COLABORANTE

                                                                 
 
   

       Zilda Fernandes -   Professora reformada . Foi a 1ª professora    
                              primária do Chitengo –  PNG - 1965/1975.



Albano Cortez - Médico veterinário, reformado. Foi para
                                        Moçambique  com apenas 1 ano de idade, tendo sido
                                       administrador residente do PNG  - o último do período
                                                                colonial (1972/1973).


                  

     Manuel Romão   -  Médico veterinário, filho do 1º administrador 
                 residente do PNG, Dr. Francisco Prestes Romão. Viveu e
             estudou a fauna do Parque  durante a vigência do pai como seu
              administrador – 1967/1972. Como legado ao Parque, deixou
                  uma coleção de borboletas constituída por cerca de 200
                            exemplares, devidamente identificados.





       Jorge Faria  -  Jorge Faria: Consultor de empresas e formador nas 
áreas de liderança e de equipas comerciais. Visitou o Parque e  acompanha de perto 
o trabalho levado a cabo pela equipa do projeto de restauração financiado por Greg Carr .





      António Sequeira Mendes: Reformado. Exerceu funções no  
                                  PNG como quadro da fiscalização – 1965/1968 -, lugar que
                                                             deixou a seu pedido. 


Saudações amigas dos membros do NC reestruturado!

Lisboa, 21 de Novembro de 2013


ADENDA DE 15 DE MARÇO DE 2014

Na reunião do Núcleo Coordenador, realizada em Lisboa a 15 de Março de 2014, com a presença de 10 dos 12 membros nomeados a 27 de Outubro de 2013 (ausentes: Albano Cortez e António Sequeira Mendes), foi aprovada por unanimidade e consta da acta da mesma reunião, a seguinte proposta apresentada pelo membro Celestino Gonçalves:

- Aumentar de 5  para 6 o número de membros do NC colaborante, lugar este a ocupar por Rui António Figueiredo Gonçalves, por se tratar de um elemento que nos últimos dois anos tem vindo a apoiar os trabalhos de organização dos eventos anuais do GAG e ter declarado, na mesma reunião, desejar fazer parte do NC que agora fica a contar com 13 membros (7 efectivos e 6 colaborantes).

Segue-se foto e dados curriculares do novo membro:



Rui António Figueiredo Gonçalves, funcionário público, de 57 anos de 
idade, natural de Moçambique e residente em Mafra. Frequentou assíduamente o PNG
desde os 5 aos 17 anos de idade.


  Lisboa, 15 de Março de 2014





sexta-feira, 22 de março de 2013

4 - HOMENAGEM A JOÃO AUGUSTO SILVA




HOMENAGEM A JOÃO AUGUSTO SILVA
(1910-1990)


JOÃO AUGUSTO SILVA (1910-1990)

A Sociedade de Geografia de Lisboa vai promover uma Sessão de Homenagem ao conhecido Artista Plástico, Investigador e Escritor de África que foi JOÃO AUGUSTO SILVA, cujo livro "ÁFRICA - da vida e do amor na selva", de sua autoria, foi
distinguido com o 1º prémio de literatura colonial.

Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República.

Dia 3 Maio, sexta-feira às 16 Horas na Sociedade de Geografia de Lisboa, Sala Portugal.

Rua Portas de S. Antão, 100
Lisboa

Telefone - 213425068


A Sociedade de Geografia de Lisboa vai promover uma Sessão de Homenagem ao conhecido Artista Plástico, Investigador e Escritor de África que foi JOÃO AUGUSTO SILVA, cujo livro "ÁFRICA - da vida e do amor na selva", de sua autoria, foi distinguido com o 1º prémio de literatura colonial.

Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República.

Dia 3 Maio, sexta-feira às 16 Horas na Sociedade de Geografia de Lisboa, Sala Portugal.

Rua Portas de S. Antão, 100
Lisboa

Telefone - 213425068
                                                        * * * * * * * *


RECORDANDO O QUE ESCREVI EM 2007 ACERCA DO HOMENAGEADO

A)- Sobre o seu livro "ANIMAIS SELVAGENS"
     - Post 17
     - Link:


1.- DADOS SOBRE O AUTOR

Funcionário do quadro administrativo colonial, João Augusto Silva fez a maior parte da sua carreira em Moçambique (décadas de 40, 50 e 60), tendo ali atingido o cargo superior de inspector. Como administrador de circunscrição, esteve colocado em vários pontos do território, incluindo a Gorongosa cujo Parque Nacional dirigiu por acumulação e sobre o qual publicou o excelente livro-álbum, "GORONGOSA - Experiências de um caçador de imagens" , que publicaremos no próximo  Post.
.
Os dados biográficos deste personagem revelam possuir uma rara formação académica e profissional, abarcando títulos invejáveis como: escritor, artista (pintura, fotografia e desenho), administrador e naturalista. Dedicou-se muito particularmente ao estudo da fauna bravia africana, sobretudo de Moçambique. Aquelas duas obras são o testemunho disso pois constituem documentos importantes que preencheram, ao tempo da sua publicação, lacunas importantes na literatura deste ramo e ainda hoje são consideradas das melhores do país.

João Augusto Silva, para além de estudioso da vida selvagem foi um excelente caçador, tornando-se muito conhecido não só pelas narrativas dos seus feitos, mas também pela acção que desenvolvia junto das populações rurais, abatendo os animais bravios que invadiam as suas culturas ou atacavam as próprias pessoas. Elefantes, búfalos, rinocerontes, hipopótamos e leões, constam da longa lista dos seus abates da chamada "caça grossa". Ele praticava a caça como sendo mais uma actividade inerente às suas funções administrativas e foi justamente esta prática que lhe proporcionou o estudo do comportamento das espécies no seu estado selvagem, deixando-nos um importante legado nesta matéria.

Na parte final da sua carreira em Moçambique, organizou e dirigiu um programa radiofónico - A VOZ DE MOÇAMBIQUE - nas principais línguas locais, que se tornou um sucesso em todo o território.




2.- DADOS SOBRE O LIVRO

Antes da publicação do "ANIMAIS SELVAGENS", em 1956, pouco fora escrito, em português, sobre a fauna bravia de Moçambique. A lacuna foi colmatada com esta preciosa obra graças à feliz circunstância do seu autor residir em Moçambique, ser um entusiasta da caça, um estudioso da vida selvagem e, também, escritor. O Governo da Colónia soube aproveitar a oportunidade e mandou publicar este excelente trabalho que surgiu numa altura da minha vida em que estava muito carente de conhecimentos da matéria.

Com efeito, nessa altura havia já concorrido ao lugar de fiscal de caça e aguardava a nomeação (confirmada em Janeiro de 1957), mas, francamente, pouco sabia sobre o panorama faunístico do território e muito particularmente dos hábitos dos animais. Esta obra ajudou-me imenso nos conhecimentos teóricos que adicionei à relativa prática de pouco mais de um ano de contacto com a vida bravia no Alto Limpopo, onde me apaixonei pela causa da protecção deste importante património da natureza.

A extensa “Introdução” deste livro, só por si, constitui uma valiosa lição sobre a vida animal selvagem do continente africano, com algumas extensões comparativas a outros continentes. Não encontrei, até hoje, em qualquer dos muitos livros da matéria que li, uma síntese tão completa e uma descrição tão encantadora sobre a fauna bravia e o seu habitat.

O conteúdo em si, a que o autor classificou de "Contribuição para o estudo da fauna de Moçambique", é todo um desfiar de narrativas de factos, através das quais se dá conta de como vivem e reagem os animais selvagens perante a interferência dos humanos e muito particularmente dos caçadores que os perseguem e abatem. Espécies como: Elefantes, Rinocerontes, Hipopótamos, Búfalos, Girafas, Elandes, Bois-cavalo, Egoceros (palapalas), Cudos, Inhalas e Impalas, foram objecto de análise pormenorizada, mas a que mereceu maior desenvolvimento foi o Elefante, o gigantesco e incontestável rei dos sertões, assim definido pelo autor que acrescentou:

No seu ambiente natural, o elefante – animal soberbo, ágil, fortíssimo, majestoso – assombra pela força bruta aliada a uma clara inteligência. Ele é um dos animais cujo tipo de inteligência mais se aproxima do nosso.

Uma vasta colecção de fotos e desenhos daqueles animais ilustra essas narrativas, não obstante algumas imagens serem de animais mortos que podem impressionar as pessoas menos preparadas para entender o desporto dito de mais nobre e viril!



Uma lista dos ungulados de Moçambique completa esta obra, conferindo-lhe carácter científico que mais a valoriza visto que ali podemos encontrar a classificação sistemática das espécies segundo as convenções internacionais (Ordem, Sub-ordem, Divisão, Família, Sub-família e Género). Na nomenclatura comum destas espécies os nomes aparecem em português, inglês, francês e línguas (dialectos) locais como Tonga, Macua e Suahili, outro aspecto importante da mesma obra.

Embora seja em relação ao elefante que o autor mais escreveu e todas as narrativas nos encantem, escolhemos contudo um trecho do texto de abertura do capítulo “RINOCERONTE”, porque raros foram os caçadores que tiveram o privilégio de caçar e narrar com semelhante realidade e sentido poético o cenário como aqui é descrito por João Augusto Silva:

Paira em toda a largura do sertão o silêncio das grandes solidões do mundo. Parece que a vida estagnou. Espinhosas retorcidas, nuas, quedam-se tristes, batidas por um bafo de fornalha que queima como ferro em brasa. A grandes espaços, uma ave que não se vê ousa soltar um canto monótono – gemido prolongado que vai morrer ao longe, lentamente. As queimadas lamberam a terra e as árvores com ardente sofreguidão, deixando por toda a parte um manto cinzento-negro de ruína. Secou a água nos pântanos e o lodo, causticado pela febre do sol, greta como os lábios de um doente.
O homem não vive por ali, nem visita essas paragens, porque o homem tem horror ao silêncio.
E, contudo, ali vivem os grandes gigantes da fauna africana.
Por essas solidões ardentes passeia melancólico o rinoceronte, dando largas à sua psicose de inadaptado. Ele não é um vagabundo como o elefante. Bem ao contrário. Esse estranho paquiderme é um burguês rotineiro e sedentário.


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Por esses matos fora nunca lograreis encontrar um elefante, um búfalo ou um antílope dormindo a sono solto. Mas ao rinocer
onte podeis surpreendê-lo dormindo pesadamente, alheio a tudo. E quando ressona fundo, sem dar conta de nada, como se ainda vivesse noutras eras, nas profundezas do Quaternário, quando o homem não passava de um tímido antropóide, impotente para lutar com as grandes feras.

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Um livro que enriquece a biblioteca não só dos apaixonados pela caça, como dos amantes da natureza e da vida do mato, tão belas são as narrativas das experiências vividas pelo autor.

Marrabenta, Junho de 2007

Celestino Gonçalves



B) - Sobre o seu livro-álbum "GORONGOSA" 
        - Post 18



1 - NOTAS SOBRE O AUTOR

Referenciado no post anterior como autor do livro ANIMAIS SELVAGENS, João Augusto Silva é trazido de novo a este cantinho para apresentarmos a sua segunda obra – GORONGOSA -, publicada em 1964, oito anos depois da primeira.


Este novo trabalho tem o estilo inconfundível do escritor-caçador-fotógrafo, que brindou Moçambique com dois dos melhores trabalhos acerca da sua fauna selvagem, a primeira sub-titulada de “Contribuição para o estudo da fauna de Moçambique” e a segunda rotulada de “Experiências de um caçador de imagens”.


Na verdade, uma obra completa a outra, porque tratando-se de um entusiasta e estudioso da vida selvagem, o autor era também um amante da caça e um excelente fotógrafo. Na primeira fez sobressair os seus dotes de caçador. Já na segunda está patente a sua veia artística com um excelente documentário fotográfico mostrando os mais significativos representantes da fauna do Parque na sua pujança de vida como bem os conhecemos naquela época.


Também demonstrou neste livro, nas narrativas e em algumas das imagens, o seu à vontade perante os mais corpulentos e perigosos animais, como o elefante e o búfalo, fotografando-os e fazendo-se fotografar a curta distância e até desafiando-os com gestos atrevidos e sem arma. Isto para justificar a tese (dele e de todos os naturalistas conhecedores da fauna africana) de que os animais selvagens, sejam de pequeno ou grande porte, temem e respeitam o homem.

Conheci João Augusto Silva em 1963, precisamente no Parque Nacional da Gorongosa, quando a sua base de actividades era já em Lourenço Marques. O facto de estar a preparar o livro GORONGOSA, levava-o a visitar o Parque com alguma frequência. Sentia-se ali perfeitamente à vontade, quer por conhecer em profundidade toda a região, quer pela forma como era recebido pelos funcionários que o tratavam com a reverência a que se habituaram em anos anteriores quando ele era o administrador de Vila Paiva de Andrade (actual vila de Gorongosa) e acumulava a direcção do Parque.

Naturalmente que o autor encontrou ali todas as facilidades, inclusive para recolher o material que lhe faltava para o “Gorongosa” e eu próprio também dei a minha modesta colaboração. Aproveitei as oportunidades que se depararam para abordar as questões mais dúbias que sempre pairam na cabeça de quem nunca sabe tudo. Foi assim que as nossas conversas conduziram a temas em que os meus conhecimentos puderam sustentar alguns diálogos com o mestre, nomeadamente a situação da fauna bravia de Cabo Delgado e Niassa (Alto Niassa do seu tempo), região que ambos conhecemos relativamente bem por ali termos prestado serviço, ele na década de 40 e eu na de 50/60.

Falámos da falta de uma política de conservação em relação às espécies mais apetecidas pelo comércio dos troféus, como é o caso do elefante e do rinoceronte. Ambos estivemos de acordo quanto à necessidade de uma reserva especial para protecção do rinoceronte em Cabo Delgado, visto que esta espécie ainda se encontrava ali bem representada mas que vinha sendo já alvo da cobiça dos caçadores furtivos incentivados por redes de tráfico dos respectivos cornos. Aliás, a ideia desta reserva já a tinha lançado nos meus relatórios anuais de 1958 e 1961, justificada plenamente visto que aquela região do norte de Moçambique albergava, na época, muitas centenas - provavelmente milhares - de rinocerontes, localizados em núcleos que identifiquei em dez zonas diferentes do distrito (actual província). A reserva, contudo, nunca foi criada!

O curso dos acontecimentos dos anos que se seguiram até 1992 veio dar-nos razão: os rinocerontes desapareceram, provavelmente até à extinção, tanto no norte como no centro e sul do país.





2 - NOTAS SOBRE O LIVRO

Porque se trata de um dos livros mais bem escritos e documentados sobre o Parque Nacional da Gorongosa, o mais importante de Moçambique e considerado até 1975 dos mais importantes de África, não posso deixar de reproduzir aqui o trecho de abertura do capítulo “Vagueando pelos caminhos do Parque”, ciente de que na actualidade e graças ao grande projecto de recuperação ali em curso pela Fundação Carr, desde 2005, os visitantes poderão saborear os prazeres daquele maravilhoso Parque e viver as emoções que o autor aqui nos transmite. As espécies continuam ali todas representadas (excepção do rinoceronte), algumas mesmo em excelente recuperação, pese embora o grande desfalque dos efectivos ali ocorrido durante a guerra civil (1977/1992). O acampamento do Chitengo foi já restaurado de forma a receber turistas e as vias de comunicação restabelecidas de forma a nelas poderem circular viaturas normais conduzidas pelos próprios visitantes. Apenas não se podem ver, por enquanto, as excepcionais manadas de búfalos, bois-cavalos e zebras, como outrora, mas a seu tempo elas serão recompostas conforme planos de reintrodução destas e de outras espécies já em execução pelo mesmo projecto.


* * *


“Estamos no Chitengo, centro dos serviços do Parque e acampamento para turistas. Vários pavilhões de construção simples mas cuidada proporcionam o indispensável conforto a quem deseja passar alguns dias de férias no maravilhoso reino dos animais selvagens. No bar ou na esplanada acolhedora, sob as copas protectoras de acácias amarelas, tomam-se refrescos e aperitivos. O restaurante, amplo e alegre, serve reconfortantes refeições e deliciosos vinhos das melhores regiões da Metrópole.
Ao cair da noite a luz eléctrica ilumina a jorros a cidadezinha-acampamento, ilha de luz no mar escuro e misterioso da floresta.
Corre uma aragem fresca. Sabe bem deambular no terreiro sob a ampla abóbada de um céu reluzente de estrelas, enquanto à roda do acampamento as hienas quebram o silêncio da noite com o seu uivo dolorido. Formam-se diversos grupos de turistas. Fala-se de caça e dos mistérios absorventes do sertão. Os novatos inquirem curiosos sobre os melhores caminhos a percorrer no dia seguinte para ver os elefantes, os búfalos, os leões… Os veteranos, com ar entendido, prestam esclarecimentos, sugerem itinerários e contam histórias – histórias que parecem fábulas – de encontros com manadas de dezenas de elefantes, de mil búfalos, de imensas hordas de bois-cavalos, de leões tão confiantes que se deixam estar, indiferentes à passagem dos carros, olhando desdenhosos. As histórias parecem incríveis e provocam assombro ou cepticismo.
Chegou a altura de recolher para dormir um sono reparador. Assaltam-nos a mente sonhos quiméricos; em cavalgadas alucinantes desfilam monstruosos animais bravios.
De madrugada toda a gente está de pé. O acampamento tornou-se arraial buliçoso e alegre. Os preparativos da partida para o mato fazem-se afanosamente por entre risos. Depois do pequeno almoço tomado à pressa tem início a debandada dos automóveis.
Logo ao fundo do campo de aviação começa a exibir-se o primeiro episódio do filme natural da selva – um filme a três dimensões, maravilhoso de cor, palpitante de realismo, que aparelho algum jamais reproduzirá com fidelidade.
Uma manada de gondongas desgraciosas espreita-nos com visível curiosidade. Duas crias brincam estouvadas. Aparecem algumas zebras gordas, de pele lustrosa como cetim. Uma centena de metros adiante o condutor pára o carro com suavidade…
- Há alguma novidade?
- Os elefantes!!!
Lá estão eles à direita, à distância de uma pedrada, passeando pachorrentamente. De quando em quando um deles detém-se, ergue a tromba para arrancar um raminho tenro no alto de uma acácia espinhosa e leva-o à boca torcendo a tromba com a mobilidade das serpentes.
O carro está parado e todos os seus ocupantes olham respeitosos o quadro invulgar.
Ali, diante de nós, desenrola-se como por encanto a cena autêntica, de um mundo perdido no fundo dos tempos. Volvemos de súbito às mais remotas eras! Aqueles monstros antediluvianos, no seu próprio ambiente, enquadrados por uma paisagem singular de palmeiras de leque, grotescas eufórbias, agressivas espinheiras, trazem-nos à memória, não sei se por misterioso atavismo, um mundo do qual conservamos reminiscências confusas na escuridão do subconsciente.
Aproxima-se um carro. Os seus ruidosos ocupantes rindo e gritando, destroem a deliciosa paz desse mundo edénico e os elefantes, com a humilde timidez dos fortes, internam-se vagarosamente na floresta. E a viagem prossegue.
Aqui e acolá, em charcos lamacentos, retoiçam javalis que olham o carro muito sérios ou fogem com a cauda espetada em pau-de-bandeira.
Passam zebras, bois-cavalos, cobos de crescente e novamente, e a cada momento, mais zebras, mais bois-cavalos, mais cobos. Estamos prestes a desembocar num outra picada à nossa frente. Aparece-nos então um soberbo elefante. É um gigante de perfeita e bem modelada anatomia. As presas irrompem-lhe do maxilar superior longas, grossas, muito brancas. Sentiu o carro. Divisou-lhe possivelmente o vulto com os seus olhitos de míope, mas como a aragem corre dele para nós, o olfacto não lhe desvenda a identidade dos intrusos e por isso o rei da selva continua o seu passeio, displicente e majestoso nos gestos, com a segurança de quem não conhece rivais e só respeita o homem.
Entramos na picada que conduz ao acampamento velho, agora transformado em solar dos leões. Estão todos ansiosos por verem o falso rei dos animais gozando plena liberdade no seu reino. Diante de nós, no meio da vasta planície desarborizada, erguem-se quatro albergues em alvenaria de tijolo, um refeitório e duas cozinhas que constituem o velho acampamento abandonado porque na época das chuvas o rio transborda sobre a planície e as águas invadem as casas e sobem até às janelas.
Nem um leão!... já é pouca sorte!
Ninguém esconde o seu desapontamento.
De súbito surge à porta de uma das cozinhas uma jovem leoa. Todos olham emocionados. A leoa queda-se uns momentos indecisa e por fim sai a passo, sentando-se no relvado a olhar-nos. Dirigimos o carro para as traseiras do acampamento. Um dos edifícios tem sentinelas à porta; uma leoa, certamente grávida, e um leão de musculatura atlética e juba pouco desenvolvida.
Da outra cozinha, mais ao fundo, sai então o patriarca do bando, um macho possante, enorme, com os músculos a desenharem-se através da pele coberta de pêlo amarelo torrado. A juba negra, farta e em desalinho emoldura-lhe a face austera onde brilham dois olhos claros de transparência vítrea. Está calor e o bicho, bamboleando no seu andar de marujo, vai estirar-se à sombra de um pequeno arbusto, olhando-nos de soslaio. Abre a boca, caverna rósea onde a comprida língua serpenteia no meio de acerados caninos muito brancos. Sensível ao calor põe-se a arfar como um caãozito fatigado.
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Continuamos a viagem. À nossa esquerda estende-se o tando – vasta planura de límpida esmeralda, tendo por pano de fundo, em cenografia ciclópica, a serra da Gorongosa pintada de azul e de lilás.
A estrada corre sinuosa na orla da mata, desvendando-nos um panorama surpreendente. Dum lado, a mata de espinheiras anãs, árvores da febre cujas flores enchem os ares com o seu perfume adocicado e palmeiras de marfim vegetal que desenham no azul do céu a graça heráldica das suas palmas em forma de leque. Do outro lado, estende-se o mar sereno da planície coberta de caça. Até onde a vista alcança vêem-se animais selvagens no mais completo à-vontade. Defendidos da ferocidade dos homens só o leão os preocupa; mas esse apenas mata para viver.
Parámos à sombra de uma acácia, para almoçar. Daí a momentos desenrola-se à nossa vista uma cena portentosa: um leão sai da espessura de uma moita e dirige-se, cauteloso, para a orla do tando. Em campo aberto pastam zebras, bois-cavalos e impalas. O leão, um jovem de pequena juba, a coberto de um tufo de arbustos, espreita com visível atenção como se avaliasse a situação e estudasse um plano de ataque. Por fim, rastejando com as cautelas do ladrão que receia ser surpreendido, vai-se aproximando a coberto das palmeiras anãs. Estaca. Já não pode adiantar mais um passo sem se denunciar. As zebras, as impalas, os bois-cavalos, ainda que descuidosos na aparência, não ignoram que os cerca um mundo de embustes e traições. Por isso mantêm-se em campo raso enquanto um ou outro varre o descampado com a sua vista penetrante. O leão achou que mais lhe conviria tentar a fortuna esperando a coberto das palmeiras anãs… E teve sorte o bandido! Em certa altura, duas zebras tomadas de brio, brincando com o desatino dos namorados, aproximaram-se em corridinhas caprichosas. Daí em diante tudo se passou num abrir e fechar de olhos.
Com a rapidez com que o raio derruba uma árvore assim o leão tombou fulminantemente sobre uma das zebras partindo-lhe a coluna vertebral de um só golpe. A vítima rebolou no chão levantando uma nuvem de poeira e o agressou voltou de pronto, cravando-lhe os dentes no pescoço musculoso. Com os caninos enterrados na carne fremente o leão ergueu a zebra, ligeiro como um gato levando um rato, e arrastou-a para a sombra fresca duma ocanheira. Ali, muito à vontade, abriu-lhe o ventre e ébrio de gozo, embrenhou o focinho nas entranhas de onde o sangue borbotava aos sacões.
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E a caravana prossegue entusiasmada com mais este episódio vivo e dramático do livro da selva.
Ao longo de toda a picada, do lado do tando, as manadas sucedem-se a perder de vista. Marchamos agora em direcção ao rio Urema – a mansão dos hipopótamos.
Predominam, os cobos de crescente, as zebras, os bois-cavalos, as impalas.
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Ao fundo, muito longe, estende-se uma fita comprida de animais que pelo efeito da miragem, comum nestas planuras sobre-aquecidas, parecem vaguear suspensos sobre um lago irreal prateado. A cena causa admiração e entusiasmo àqueles que nunca haviam presenciado o estranho fenómeno.
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Avistam-se hipopótamos pastando como toiros nas lezírias. À vista do carro movimentam-se e correm para o rio em fila indiana, O carro aproxima-se e os volumosos paquidermes, para espanto de quem os supunha pesados e lentos, largam em corrida célere e mergulham nas águas, fragorosamente.
Fazemos alto à beirinha do rio. Bem perto de nós, boiando nas águas lodosas, agita-se uma massa compacta de hipopótamos, talvez duas centenas. Mas tão longe quanto a vista alcança, sucedem-se manchas de hipopótamos, verdadeiros cardumes ao longo do rio sinuoso que, batido de chapa pelo sol, lembra uma larga fita de aço inoxidável desdobrada na verdura da planície.
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Depois destes momentos tão bem passados, ricos de acontecimentos e imprevistos, abalamos de regresso ao acampamento.
Sobre o lugar onde deixáramos o leão com a presa volteiam abutres. Dirigimo-nos para lá. À chegada do carro os abutres que estavam poisados, banqueteando-se sofregamente, levantam voo e protestam riscando os ares calmos com o seu piar sinistro.
Aproximam-se dois chacais prateados e logo a seguir à primeira curva depara-se-nos uma hiena farejando os ares.
O acampamento está cheio de turistas. Trocam-se impressões animadamente. Cada um conta entusiasmado as cenas que presenciou, duvidando que outros tenham assistido a maravilhas semelhantes.
No dia seguinte abalamos em busca de novas aventuras.”

* * *

NOTA: Mais informações sobre a história e a situação actual do Parque Nacional da Gorongosa, podem ser recolhidas nos sites:


http://www.gorongosa.net/index_por.html
http://my.gorongosa.net/

Marrabenta, Junho de 2007

Celestino Gonçalves

terça-feira, 5 de março de 2013

3 - ALMOÇO-CONVÍVIO DO 7º ANIVERSÁRIO DO GAG


ALMOÇO-CONVÍVIO DO 7º ANIVERSÁRIO  DO
 GRUPO DE AMIGOS DA GORONGOSA
(GAG) 



Realizou-se no passado dia 2, em Lisboa - Hotel Olissipo Oriente - o almoço-convívio do 7º aniversário do Grupo de Amigos da Gorongosa (GAG), evento que reuniu mais de uma centena de pessoas (cerca de 120). 

Estiveram presentes, para além de membros deste grupo informal, e de  novos aderentes  do GAG, algumas individualidades convidadas, nomeadamente o Embaixador de Moçambique em Portugal, Dr. Jacob Jeremias Nyambir, o filantropo americano Greg Carr, financiador e dirigente do Projeto de Restauração da Gorongosa, Coronel Beca Jofrisse, membro do Comité de Supervisão do mesmo projeto, Drª Fernanda Matsinha, Secretária Permanente do Ministério do Turismo de Moçambique, Dr. António Maló de Abreu, empresário e presidente da ONG "Memórias e Gentes", Drª Helena Freitas, vice-Reitora da Universidade de Coimbra, Drª Sofia Brás Monteiro, Escritora e Empresária de Publicidade e Design, Dr. José Arimateia, Presidente para o Turismo do grupo Visabeira, Engº Francisco Ferreira, presidente da QUERCUS, Dr. Vasco Galante, director de comunicação do PNG,  Dr. Paulo Azevedo e Nicole Azevedo, do grupo SONAE.

Este almoço-convívio anual, que vem sendo feito com regularidade desde a fundação do GAG, em 2007, revestiu-se este ano de particular importância graças ao grande interesse que o grupo tem despertado ao nível de organizações e pessoas que nos últimos anos visitaram a Gorongosa ou se revelaram interessadas em conhecer e até apoiar este maravilhoso santuário de fauna bravia de Moçambique.

A elevada participação e o envolvimento de pessoas representando organizações que já estão ou pretendem estar envolvidas no processo de restauro do PNG, como a Quercus, a Visabeira, a "Memórias e Gentes", a Associação Altista Kanimambo, a AsiliaAfrica e alguns promotores turísticos presentes, transformaram este evento na melhor jornada de divulgação da Gorongosa que o GAG havia feito até à data. E como este é   o principal objetivo do Grupo, ficou a certeza de que foi em boa hora que  meia dúzia de antigos colaboradores  do PNG e alguns amigos fãs do Parque criaram o GAG, cuja breve história deu início a este Blog.

Usaram da palavra durante o convívio José Canelas de Sousa, em representação do GAG e que moderou a sessão, Greg Carr (PNG), Maló de Abreu (Memórias e Gentes), Lorena Laranjeira  (Visabeira), Rita Frias (AsiliaAfrica), Vasco Galante (PNG) e Embaixador de Moçambique em Portugal.

Destacamos o interesse e atenção dispensada aos oradores, tendo havido passagens dos discursos particularmente aplaudidas com entusiasmo como foi a divulgação do Dr. Maló de Abreu sobre a colaboração que a "Memórias e Gentes" vai dar à Gorongosa: a doação de uma biblioteca com 15 mil livros e o restauro da emblemática "Casa dos Leões", um ex-libris do Parque desde os anos 40! Também as homenagens prestadas pelo representante do GAG aos pioneiros do Parque, organismos  e outros elementos que até agora têm sido preponderantes no desenvolvimento do mesmo, mereceram fortes aplausos. Citamos as nomeações: José Henriques Coimbra (tinha dois filhos presentes); Guarda Figueira Meque; Coronel Pinto Soares; Alfredo Rodrigues; Manuel Pinheiro Rodrigues da Costa; Amadeu Silva e Costa; Armando Rosinha (tinha um filho presente); Francisco Romão; Albano Cortez (presente); Baldeu Chande; Roberto Zolho; Adelino Serras Pires    (irmão José Augusto presente);  Guardas auxiliares, Castigo Mamunanculo, Batage Vasco, António Algesse, Paulino Campira, João Pranga e Paulino Miranda; Greg Carr; Beca Jofrisse;  Mateus Mutemba, Vasco Galante, Governo de Moçambique; Grupo Visabeira; Parceiros Portugueses: IPAD, Universidade de Aveiro e "Memórias e Gentes".

Como sempre acontece, a parte final do convívio decorreu em franca camaradagem, troca de impressões e as habituais sessões de fotografia que só pecaram por não haver espaço suficiente para reunir os presentes para a chamada "foto de família". As fotos  que estão disponíveis no Álbum Picasa revelam bem a dificuldade de congregar o maior número possível de convivas numa só foto.

O GAG deu um grande salto em frente na prossecução dos seus objetivos!

Estão de parabéns todos os AMIGOS DA GORONGOSA!

Ficam para consulta os Links do álbum de fotos e do vídeo feito pelo Fernando Gil, membro do Núcleo Coordenador do GAG:

FOTOS:



VÍDEO



Saudações amigas dos coordenadores do GAG:
- Maria José Santos (Mizè); Graça Moreira, António Jorge (TóJò), José Canelas de Sousa; Fernando Gil e Celestino Gonçalves.

ESTAMOS JUNTOS!




















quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2 - HISTÓRIA DO PNG



DADOS HISTÓRICOS SOBRE O

PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA

 


- I -

 1968 -  Armando Rosinha

Relatório do Dr. Armando Rosinha, que foi administrador do PNG de 1965 a 1967, em acumulação de funções com as de chefe da Repartição Distrital de Veterinária de Manica e Sofala. 

Este relatório foi publicado em 1968, nos Anais dos Serviços de Veterinária de Moçambique, nº 16, págs. 161 a 174 e constitui o  documento oficial mais completo que foi elaborado  até àquela data, relacionado com a história do Parque Nacional da Gorongosa.

     (Prima  a tecla Ctrl e ao mesmo tempo use o scrol (roda do rato) para aumentar o texto) 













                                                                           *   *   *   *   *
                                                                                  *   *  *
Ver também em: http://www.gorongosa.net/pt/page/1968_Armando_Rosinha/1968--armando-rosinha




 - II -

1981 -  Armando Rosinha

Comunicação apresentada pelo autor na 1ª Conferência Nacional sobre Fauna Bravia, realizada em Dezembro de 1981, no Chitengo – Parque Nacional da Gorongosa- e  publicada na revista Arquivo, Maputo, Nº 6, págs. 211 a 238.





ALGUNS DADOS HISTÓRICOS SOBRE O
 PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA


Armando Rosinha


1. INTRODUÇÃO


Relativamente ao Parque Nacional da Gorongosa julgamos que já se pode falar em

história duma área de conservação de fauna bravia pois, embora ele possua apenas

escassos 21 anos como Parque Nacional, conta já com largos 60 anos desde que, em

parte da sua actual área, foi criada uma "Reserva de Caça".

Assim, dividiremos a vida do Parque Nacional da Gorongosa em períodos

correspondentes às fases por que foi passando, podendo considerar as seguintes:


1ª — Fase da "Reserva de Caça", sob jurisdição da majestática e

colonial "Companhia de Moçambique" (de 1921 a 1948).

2ª — Fase ainda como Reserva de Caça, agora já sob jurisdição do governo colonial,

através da chamada "Comissão Central de Caça" (de 1948 a 1960).

3ª — Fase do Parque Nacional, sob jurisdição dos Serviços de Veterinária coloniais

(de 1960 a 1975, data da Independência Nacional). '

4ª — Fase actual, após a Independência Nacional (de 1975 até a presente data).

Por razões facilmente compreensíveis, iremos ocupar-nos apenas da história das três

primeiras fases — que no fundo serão aquelas que já hoje se podem considerar como

históricas — deixando a fase que estamos vivendo para mais tarde, e certamente para

pessoa melhor qualificada para fazê-lo.



2. O MOVIMENTO INTERNACIONAL PARA A PROTECÇÃO DA FAUNA BRAVIA


Desde os tempos mais recuados que os animais selvagens vem sendo as principais

vitimas do homem, ou porque constituem para ele uma fonte de alimentação, ou porque

lhe proporcionam 
materiais para seu vestuário e adorno, ou ainda
por lhe fornecerem a matéria-prima necessária
confecção de vários artigos de carácter utilitário e

para a confecção de valiosos objectos artísticos
ou, finalmente, para lhe servir de desporto.
Em consequência, estando os animais bravios
em perigo de total extermínio, impunha-se a
tomada de medidas de protecção adequadas
e, portanto, não surpreende que as primeiras
providencias que surgiram em muitos países e
territórios fossem precisamente de protecção à
fauna bravia.
A acção, que hoje abrange todo o mundo, no
sentido de preservar os elementos da fauna e da
flora, meio ambiente, etc. — ou seja, o movimento
de protecção da natureza — acabou também por
atingir a África colonizada.
Como se sabe, foram as destruições
crescentes e indiscriminadas dos componentes
da fauna e da flora, causadas pelo homem
— destruições que por vezes apresentavam
aspectos alarmantes — que serviram de aviso
e estimularam os espíritos mais esclarecidos a
tomarem posição contra esse estado de coisas.
A noção do perigo de extermínio de muitas
das actuais espécies faunísticas e florísticas
— facto que a verificar-se acarretaria prejuízos
irreparáveis para a ciência — tornou-se dia a
dia mais clara, desenvolveu-se, expandiu-se e
conduziu a que se tomassem medidas gerais de
protecção a flora e a fauna, não apenas na Europa
e na América mas também em ou tros continentes,
incluindo África.
Criaram-se então, em África, vários Parques
e Reservas para a protecção da fauna e da flora,
antes e depois da Conferência para a Protecção
da Fauna e da Flora Africanas, realizada em
Londres em 1933, e sem esquecer que algumas
dessas Reservas de protecção a fauna são
mesmo anteriores até à Convenção Internacional,
também de Londres, de 1900.
E provável que as primeiras disposições
oficiais de protecção à fauna, no Moçambique
colonial, tenham surgido durante a segunda
metade do século XVIII, pelo menos para algumas
das espécies que eram mais cobiçadas pelos
seus despojos, visto ter sido antes e durante
esse século que o "marfim" e as "peles" se
encontravam entre os artigos mais altamente
procurados pelos aventureiros, na ânsia de
enriquecerem rapidamente.
A protecção a fauna iniciou-se com
os "Regulamentos de Caça", e o mais antigo
que se conhece e o de 1893, que diz respeito ao
território de Manica e Sofala (Decreto de 27 de 
Junho, B.O. nº 40).


O Decreto de 28 de Dezembro de 1903, publicado no B.O. nº.9, de 27 de Fevereiro
de 1904, aprovou o "Regulamento de Caça" no Distrito de Lourenço Marques. Este
mesmo "Regulamento, depois de modificado, foi posto em vigor para toda a Província
de Moçambique, por Decreto de 2 de Junho de 1909, B.O. nº.33, de 14 de Agosto de
1909.
Aceita-se, no entanto, ter sido apenas em meados do século XX que alguns homens
esclarecidos se reuniram para clamar contra a situação dos "Recursos Naturais",
perante as constantes destruições que estes vinham a sofrer.
Sob o ponto de vista científico, a criação e manutenção de Parques e Reservas
reveste-se de um significado que nem sempre é inteiramente compreendido. E isto
porque muitos podem, a primeira vista, julgar que a ciência se poderia contentar com as
montras e dioramas dos museus, ou mesmo com os modernos jardins zoológicos que
se espalham por quase todas as grandes cidades do Mundo. Sucede, porem, que nos
museus só é observável a expressão estática de uma vida que passou, quando o que
realmente importa estudar é o dinamismo e realidade da vida presente.
Quanto aos jardins zoológicos eles permitem, de facto, que o cientista se limite a ver
os animais como seres isolados — que afinal não são — sendo assim impossível situá-
los no seu ambiente natural, no seu "habitat", encarando-os portanto a luz de todos os
aspectos que encerram, e a organização social de que desfrutam.
É pois bastante recente a existência de uma consciência generalizada sobre a
necessidade científica de se poder dispor de Reservas Zoológicas ou Botânicas, se bem
que, há muito tempo já, outros motivos tenham conduzido a preconizar variadas formas
de protecção a natureza.
Já Platão, na antiga Grécia, falava sobre o povoamento florestal das Colinas da
Ática, e Plinio afirma que foi Fluvius Lupinius quem primeiro, na Roma antiga, imaginou
Parques para javalis e outros animais das florestas, logo imediatamente secundado por
Luculus e Hortensius.
Durante a Idade Media determinou-se que certas espécies animais ou florestais não
podiam ser abatidas pelo chamado "povo miúdo" e, em 1575, o Príncipe de Orange, na
Holanda, comprometeu-se, diante do juiz de Haia, a manter "perpétuamente intacto o
bosque da cidade".
Três séculos passados, em 1853, um grupo de pintores franceses conseguia a
protecção da lei para uma parte da floresta de Fontainebleu e, em 1872, três norte-
americanos obtiveram o mesmo resultado para o que é hoje o celebre Parque de
Yellowstone.

Julga-se assim que a primeira reserva natural terá sido estabelecida em 1853, quando
aquele grupo de activistas franceses conseguiu que uma parte da floresta de Fontainebleu
fosse colocada sob a protecção da lei, a fim de manter intacta a sua beleza..."
Idêntico desejo levou os três americanos, em 1870, na região de Yellowstone, depois
de verificarem as devastações praticadas, a concluírem haver necessidade de conservar
e proteger aquela região como "a public park of pleasure ground for benefit and enjoyment
of the people...", tal como é definida na lei de 1 de Março de 1872, que estabeleceu o
primeiro "Parque Nacional" dos Estados Unidos.

Depois, perante o entusiasmo dos escritores do século XVIII, apareceu Alexander von
Humboltt, que surge como o promotor da ideia de "protecção da natureza" e, ao mesmo
tempo, no domínio das ciências naturais, da "teoria ecológica" que persiste até aos nossos
dias. Foi ele o primeiro a usar o ter mo "monumento natural", para exprimir que a natureza
produz aspectos notáveis que convém respeitar e proteger.
Posteriormente, em 1902, efectuou-se uma Convenção relativa à protecção das aves,
a qual veio, em 1954, a ser substituída pela "Convenção de Paris".
Em 1933, efectuou-se em Londres uma convenção para protecção da fauna e flora
africanas. Em 1942, também em Londres, realizou-se uma Conferência Internacional para
a "protecção da natureza no hemisfério ocidental". Depois disso são realizadas inúmeras
conferências e reuniões, como a de 1949 em Lake Sucesse, e a de Outubro de 1953 em
Bukavu...

0 conceito de "Parque Nacional" foi primeiramente descrito na "Convenção para a
Preservação da Fauna e Flora e Belezas Naturais Panorâmicas das Nações da América",
assinada em Washington em 12 de Outubro de 1940.
A diferença entre "Parque Nacional" e "Reserva" reside em que o primeiro deve ser
administrado e manejado pelo governo central e está aberto ao publico, enquanto que a
Reserva pode ser regional ou privada e estar, eventualmente, vedada ao publico. Hoje,
existem no mundo mais de um milhar de Parques Nacionais e áreas análogas sendo,
portanto, o primeiro o de Yellowstone, em 1873, e depois na Suíça em 1914, em Espanha
em 1915, e na Itália em 1930.

Conhecem-se 4 parques nacionais internacionais: o Vale de Odessa H.Park, com
lado francês e lado espanhol; o W.National Park, com lados no Níger, Benin e Alto Volta;
o Water ton Glacier International Park, entre os Estados Unidos e o Canadá; e o Tetras
N.Park entre a Polónia e a Checoslováquia.

Quando em 1872, foi proclamado o 1º Parque Nacional em Yellowstone, os seus
objectivos eram: opor-se a exploração pelo homem, com o objectivo de conservar
espécies e ecossistemas ou paisagens; conseguir que os visitantes obtivessem
benefícios diversos (recreativos educativos e culturais); aproveitar essa conservação
para efectuar estudos científicos que não podiam realizar-se noutro lugar.
É sabido que, entre essas três motivações, predominou a segunda no espírito dos
precursores de 1872, "estabelecido como parque publico ou terreno de recreio para
beneficio e desfruto da população".

Em Varsóvia, em 1960, funda-se a "Comissão Internacional de Parques Nacionais
da UICN" e esta introduziu, no que se refere às áreas protegidas, um mínimo de ordem
em matéria de classificação ou nomenclatura. Primeiro, escolheu 4 critérios: Estatuto;
Superfície; Pessoal e orçamento, destinados a permitir a selecção dos territórios
que mereciam ser citados num "quadro de honra", criado em 1959, pelo Conselho
Económico e Social das Nações Unidas.

A "Comissão" publicou duas versões, uma em francês, em 1967, e outra em inglês,
em 1971, da lista das Nações Unidas dos Parques Nacionais e Reservas análogas,
seguidas de uma mais recente actualização.

Por ultimo, essa "Comissão" trabalhou afincadamente para que a Assembleia Geral
da UICN aceitasse a votação de um texto em que se definia o conceito de Parque
Nacional, o que foi feito em 1969, em Nova Delhi.
Como e sabido, essa definição compreende 5 condições, fundamentais: ampla
extensão, conteúdo notável, regime de protecção eficaz e gestão e criação pela mais
alta autoridade competente do Pais, e turismo autorizado.

O termo "Parque", na sua origem inglesa, aplicava-se aos bosques isolados, não
produtivos, mas administrados e não necessariamente votados à protecção. No entanto
pode supor-se que o termo "Parque" implicava a ideia de uma Reserva para visitantes.^
0 conceito, no seu aspecto central, consistia em não interferir, e em não explorar, mas
em permitir o acesso do público para desfruto da natureza.

0 significado do sufixo "nacional" é mais claro, mas tem um sentido duplo. Em
termos de qualidade implica que o Parque oferece características de importância
superior a local, ou inclusive a regional ou provincial, que se destacam entre os
melhores exemplos desta índole dentro do território nacional e constituem uma valiosa
contribuição para o património mundial.

É nesse sentido que os Parques Nacionais merecem a selecção, a protecção e a
supervisão contínua, ao mais alto nível nacional, sendo mantidos por e para a Nação, com
respeito a disposições muito restritas quanto à sua alienação jurídica ou alteração.
0 conceito de "Parque Nacional" começou a desenvolver-se há um século, quando
se observou em certos Países que, por causa das necessidades e pressões humanas,
algumas espécies de plantas e de animais começavam a desaparecer e que determinadas
características de importância geológica e arqueológica, eram alteradas por forças
poderosas.

O conceito de "Parque Nacional" permitiu então separar amplas extensões de
terreno, em forma de zonas selvagens ou naturais. Considerou-se que esses territórios,
com a sua variedade de aves, mamíferos, peixes e diferentes camadas de vegetação,
abandonados a si mesmos e desprovidos de qualquer influencia humana, chegariam a
encontrar um "equilíbrio da natureza". O objectivo era conceder a protecção completa a
zonas representativas de um meio submetido a rápidas mudanças. Naquela época, o "meio
ambiente" da maioria dos Países em desenvolvimento quase não havia sido afectado pela
influencia da industria.

Os recursos animais, as peles e seus produtos, não eram mercadorias importantes no
comércio mundial, ou se o eram em certos casos, recebiam menos atenção que o comércio
de escravos que era o centro de atenção das discussões da época.
0 século XIX foi um período significativo da exploração activa em muitas partes do
mundo. A população humana era bastante reduzida, e muitos povos do Mundo viviam
da caça, pesca ou simples colheita de mel, frutos, raízes e vegetais. Os animais bravios
deslocavam-se a vontade nas suas rotas tradicionais de migração, sem grandes obstáculos.
Os instrumentos usados para caçar eram de carácter rústico, e em consequência, não
podiam usar-se perigosamente ao ponto de ameaçar ou prejudicar uma espécie através da
caça.

0 progresso do homem e das armas e sua utilização, e a descoberta da espingarda
significaram o início de uma nova era para a caça de animais bravios e para o homem. E a
partir dai, tudo mudou.

É um facto que, em outras eras, as colectividades que pescavam e caçavam o
faziam para se abastecerem a si próprias e as suas famílias, com alimentos e roupas,
mas a exploração comercial actual ameaça a própria existência de numerosas espécies

possuidoras de peles e troféus valiosos, tanto a nível nacional como mundial.

Em muitas partes da África o conceito de "Parque Nacional" foi influenciado
poderosamente pela Convenção de Londres de 1933, que tendia a salientar que, dentro
do possível, a exclusão de toda a actividade humana manteria os Parques Nacionais
intactos e sem modificações notáveis. No entanto, na conservação das zonas naturais,
esse objectivo não conseguiu resistir a prova do tempo.
É um facto biológico que as sãs populações de plantas e animais evoluem até um
ponto culminante e sempre se produzem mudanças naturais de flora e fauna, que fazem
com que, ao cabo de uns poucos de anos, nenhuma zona seja, na realidade, igual.
Mesmo nos museus, monumentos, etc, a politica de não tocar" não chega para
assegurar a conservação de exemplares mortos!

Precisamente este processo continuo de trocas entre a natureza, e os erros
cometidos nos países desenvolvidos, levaram os países em desenvolvimento de muitas
partes do Mundo a realçar o "maneio e investigação dos recursos" como um importante
aspecto no conceito de Parques Nacionais.
Para se poder estabelecer um "maneio" adequado, num "Parque Nacional", torna-se
necessário, portanto, investigar os respectivos recursos, pela forma seguinte:
Fazer investigações sobre o solo, que abarquem a análise do mesmo e a
determinação da sua humidade e temperatura;
Estudar a sociologia das plantas, estabelecendo transições e
empregando a fotografia aérea para descobrir as tendências da vegetação por
comparação com fotografias tiradas em estações diversas.
Estudar o efeito das "queimadas", seus usos e forma de luta contra os
incêndios voluntários e descontrolados.
Estudar os sistemas de raízes para descobrir a influência que exercem
sobre a presença de ervas e outras plantas.
Efectuar estudos meteorológicos em diferentes tipos de vegetação, que
compreendam a pluviosidade, as temperaturas do ar, a humidade relativa, a saturação e
ventos (direcção e velocidade).
Efectuar estudos de ecologia animal, que abranjam o maior número
possível de espécies.
Só depois de dispor de ampla informação as autoridades dos Parques Nacionais
poderão adoptar decisões responsáveis que conduzem a boas práticas de conservação.
A Xª Assembleia Geral da UICN, que se reuniu em Novembro de 1969, em Nova
Delhi, adoptou uma resolução contendo a definição do termo “Parque Nacional”.

Em face da importância reconhecida aos "Parques Nacionais" pela Nações Unidas",
tanto no aspecto do emprego judicioso dos recursos naturais como na utilização crescente
nos últimos anos, que é feita em certos Países da expressão "Par que Nacional" para
designar territórios com estatuto e objectivos cada vez mais diferentes, à 10ª Assembleia
Geral da UICN, reunida em Nova Delhi em Novembro de 1969, recomenda que os
Governos de todos os Países aceitam reservar a designação de "Parque Nacional" para os
territórios correspondendo às características abaixo indicadas e assegurar que os poderes
locais e as organizações privadas desejando constituir reservas naturais façam o mesmo:
Um Parque Nacional é um território relativamente extenso:
1)
que apresenta um ou vários ecossistemas, geralmente pouco ou nada
transformados pela exploração e ocupação humana, em que as espécies animais ou
vegetais, os locais geomorfológicos e os habitats apresentam um interesse especial do
ponto de vista cientifico, educativo, e recreativo, ou nos quais existam paisagens naturais de
grande valor estético, e
2)
no qual a mais alta autoridade competente do Pais tenha tomado medidas
para impedir ou eliminar, desde que possível, em toda a sua área, essa exploração ou essa
ocupação, e nela fazer, efectivamente, respeitar as entidades ecológicas, geomorfológicas
ou estéticas, que hajam justificado a sua criação, e
3)
no qual a visita é autorizada, sob certas condições, para fins recreativos,
educativos e culturais;
De qualquer forma os "Parques Nacionais" não devem ser considerados como
empresas comerciais, mas sim como um serviço público (como os museus e galerias de
arte), embora muita gente os valorize apenas como fonte de divisas estrangeiras.
Em 1950, quando iniciámos a nossa vida profissional como veterinários em
Moçambique — desconhecendo quase em absoluto o problema em causa — viemos
encontrar

 ideias, generalizadas a técnicos e responsáveis e, de um modo geral, a toda a
gente, que assentavam nas seguintes bases fundamentais:
— O progresso da Agricultura e da Pecuária era seriamente entravado pela presença de
Glossinas, em grande parte do território;

-
A existência das Glossinas estava íntima e decisivamente ligada à
presença de uma abundante e variada fauna bravia;
-
A melhoria da Pecuária, especialmente nos seus aspectos qualitativos e
quantitativos, só poderia verificar-se desde que a fauna bravia fosse dizimada — como
medida de saneamento e nas planícies e florestas passariam, depois, a poder viver
tranquilamente os tão desejados e necessários animais domésticos;
-
Ou "caça", ou "gado", era o slogan, apregoado aos quatro ventos, e
interpretado, na ocasião, como querendo expressar que, para haver "gado", se tornaria
necessário destruir todos os animais bravios.
O que sucedeu, porém, foi que, mercê da publicação do célebre Decreto nº 40.040,
em 1955, os assuntos respeitantes a fauna bravia foram, como todos sabemos,
entregues pelo Governo Colonial aos Serviços da Veterinária e Industria Animal de
então...
Isto equivale a dizer que, ao tempo, os serviços oficiais responsáveis pela Pecuária
— e pela Fauna também, portanto — apoiados decididamente pela opinião publica
generalizada, aceitavam com bons olhos, e desejavam mesmo, o extermínio puro e
simples da enorme riqueza constituída pelos animais selvagens que habitavam ainda, e
felizmente, grande par te do território da então colónia de Moçambique.
E, se os Serviços oficiais responsáveis pela fauna bravia, pensavam assim, não
é de estranhar que os restantes — Administrativos, de Agricultura, de Saúde, etc. —
ainda fossem mais extremistas, dai resultando as enormes dificuldades pelas quais
a "conservação" teve que passar sempre, sendo portanto a causa de muitas situações
desagradáveis verificadas.


3. PARA A HISTÓRIA DO PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA

a) Fase da "Reserva de Caça" sob jurisdição da majestática e colonial
Companhia de Moçambique
Os documentos mais antigos a que tivemos acesso informam-nos que a base da
existência da "Reserva da Gorongosa" se encontra num despacho de 18 de Outubro
de 1920, do então governador da Companhia de Moçambique, Pery de Linde, no qual
determinava: "Convindo reservar a maior parte da Circunscrição (Gorongosa) para a
caça somente, desejo que o Chefe de Serviços de Agrimensura informe sobre o assunto
o que se lhe oferecer.

Foi pois em consequência deste despacho, que posteriormente, se determinou uma
área de cerca de l.OOOKm2 destinada à protecção da fauna na Gorongosa (Portaria de 2
de Março de 1921), superfície mais tarde ampliada para 3.200Km2 , por se ter verificado
que a primitiva "Reserva" não abrangia as áreas normalmente habitadas por duas
espécies animais consideradas muito importantes — o rinoceronte e a inhala — (Decreto
nº 26076 de 21 de Novembro de 1935).

Este Decreto aprovou um Regulamento de Caça da Companhia de Moçambique e foi
no seu art. 10º que ficou estabelecido o seguinte: "É actualmente "Reserva de Caça" uma
Coutada única, na circunscrição da Gorongosa, tendo como limites... etc".
Parece portanto poder deduzir-se que esta "Reserva de Caça da Gorongosa não
funcionava, de facto, como área de protecção total à fauna bravia, mas sim como zona
reservada para a caça por parte dos privilegiados e dos seus convidados. .. Isto é
confirmado, por exemplo, por um documento de 1935, de que tivemos conhecimento
na Beira, aquando da nossa estadia à frente da Repartição Provincial de Veterinária
de Manica e Sofala (de 1963 a 1967), e no qual a Direcção da Companhia, dirigindo-
se ao Administrador da Circunscrição da Gorongosa (ao tempo, também o responsável
pela "Reserva"), em confidencial, informava que: "estando prevista para breve a visita
à Beira do Cruzador Britânico "CARLISLE", e constando do programa organizado
para a respectiva, oficialidade uma caçada nos tandos da Gorongosa, e sabendo-se
que, ultimamente, se vem verificando desmandos e transgressões de caça, naquela
área, recomenda ao Sr. Administrador medidas adequadas para que aqueles ilustres
convidados não vão encontrar os animais muito dispersos e muito excitados, o que lhes
dificultaria o desejado êxito na caçada..."

Sabe-se, também que Presidentes da Republica Portuguesa, como os Generais
Carmona e Craveiro Lopes, realizaram caçadas oficiais nas áreas da Gorongosa.
A "Reserva" ficou, após a sua criação, a cargo da Administração da Circunscrição,
em Vila Paiva, e foi sob a orientação daquela entidade que, ao tempo, foi construída a
estrada ligando Vila Paiva ao "tando".
No local onde se encontra o Chitengo ficou a residir, numa palhota, um guarda da
Reserva, o "indígena" José Ferreira.

No ano de 1935, foi nomeado fiscal da Reserva o Sr. José Henriques Coimbra,

que se fixou também no Chitengo, e em palhota, com a sua família, tendo o guarda
Ferreira passado então para as funções de guia de visitantes. O acampamento do
Chitengo passou a desenvolver-se, construindo-se as primeiras casas sob orientação
do fiscal Sr. Coimbra, que abriu também o primeiro poço para o abastecimento de
agua. O fiscal Sr. Coimbra, viveu no Chitengo de 1935 a 1942, tendo depois, devido a
um acidente que o incapacitou temporariamente, sido transferido para a Beira, embora
continuando como encarregado da Reserva.

Foi também por essa altura que o Comandante da Policia da Beira, considerado
como um grande entusiasta da Gorongosa — o capitão Pinto Soares — com o
caçador Sr. Alberto de Araújo e o Figueira Meque — ainda aqui junto de nós e a
trabalhar pelo seu Parque — deram inicio a abertura dos alicerces para implantação
das construções ainda hoje existentes no portão da entrada, do lado de Bue Maria.
O chamado "acampamento velho", no tando do Songo, também conhecido
por "Casa dos Leões", foi construído em 1940, por um pedreiro indo-portugues,
de nome Costa, e sob orientação do fiscal Sr. Coimbra. Este acampamento foi
abandonado dois anos depois por se ter verificado que o local onde estava implantado
ficava sujeito a inundações na época das chuvas, uma das quais "meteu agua" ate ao
nível do forro das casas...A partir do abandono, famílias de leões ocuparam as casas,
os terraços e as sombras, o que passou a constituir uma das atracções turísticas mais
apregoadas da Gorongosa.

O comentário que nos merece esta primeira fase do nosso Parque Nacional da
Gorongosa, é o de que, embora os objectivos que levaram a criação da "Reserva"
não tivessem, como já se disse, predominância proteccionista, a verdade é que deles
resultou qualquer coisa de útil, preservando-se para o futuro uma área, e a sua fauna,
de inegáveis valores naturais.

É bom não nos esquecermos de que Companhia de Moçambique era uma
empresa de exploração e que, dentro desses objectivos, explorou de facto, e em
grande escala a fauna bravia.

Aproveitando-se dos "mitos" como os dos "animais ferozes", "animais daninhos",
e das realidades da existência de grande número de "caçadores profissionais", e da
oficializada e rendosa exportação sistemática do "marfim", dos "cornos de rinoceronte"
e peles, a Companhia de Moçambique iniciou o grande desbaste que sofreu a fauna
bravia no território de Manica e Sofala, outrora considerado o mais elevado expoente,
em Moçambique, daquilo a que chamavam, falando da África em geral, o "paraíso dos
caçadores"...

Num folheto de propaganda — "A Caça em Moçambique" — editado em 1938
pela Repartição Central de Estatística, encontramos a seguinte e expressiva
referencia: "Se a África é o paraíso dos caçadores, Moçambique é um dos mais
privilegiados recantos desse paraíso. Nas suas florestas, nos seus ' tandos' e 'lânguas',
nas margens, restingas e ilhotas nos seus rios e lagoas, uma fauna riquíssima em
variedade e abundância se oferece, tentadora, ao caçador. O território da Companhia
de Moçambique é, entre todos os da Colónia, aquele que goza da fama de possuir
mais caça. São, na verdade, notáveis os celebres 'tandos' ou 'dambos' da Gorongosa,
extensíssimas planícies onde os boi-cavalos, as zebras, os leões, os búfalos, os
elefantes e muitas espécies de antílopes se contam por milhares. É a zona da colónia
mais frequentada por turistas estrangeiros, amadores deste desporto, e a região onde o
caçador, principalmente, mais oportunidade tem de fazer boa figura".

Igualmente, numa outra monografia — "A Caça em Moçambique" — apresentada
pela "Comissão de Caça de Moçambique" por ocasião do IV Congresso do Turismo.
Africano, realizado em Lourenço Marques, em Setembro de 1952, deparamos com
as seguintes passagens, a propósito ainda do território de Manica e Sofala, e da
Gorongosa: "Poucas zonas de Moçambique reúnem um conjunto de condições tão
favoráveis á vida dos mais variados animais. Nos seus 3000km2, por feliz distribuição
das linhas de relevo e da variedade da vegetação que aqui se origina, encontram o
seu 'habitat' próprio animais que vão desde os mais graciosos antílopes — pouco
maiores do que coelhos, até aos espectaculares 'cambacos' de pontas a roçarem o
chão. Rica na variedade das espécies, é-o também na abundância de cada uma. O
número de animais que eu vi, num percurso de uma dezena de quilómetros no Parque
da Gorongosa — dizia um visitante conhecedor de parques de caça — não se vê
facilmente noutro lugar!"

b)Fase da "Reserva de Caça" sob jurisdição do governo colonial através da
Comissão Central de Caça (1948 a 1960)

Em 1948, atendendo ao volume das obras a executar no novo acampamento de
Chitengo, o Governo, através da "Comissão de Caça", contratou o Sr. Alfredo Rodrigues
como encarregado das mesmas, tendo posteriormente sido investido, nas funções de
fiscal de caça, em substituição do Sr. Coimbra.

O delegado da "Comissão de Caça" na área da Gorongosa continuava a ser o
respectivo Administrador da Circunscrição e assim, era este quem continuava a dirigir a
Reserva e a orientar mesmo as obras em curso.

Foi também por esta altura que, verificando-se que os limites, ultimamente
implantados, não serviam satisfatoriamente especialmente por terem consentido que
a estrada Beira -Rodésia, (a antiga estrada que, atravessando o rio Pungué, depois
de Gôndola e do rio Urema, ia desembocar na estrada Beira-Inhaminga, próximo da
Muanza) e determinou que ela ficasse incluída dentro da área da Reserva e, por esse
motivo, novas propostas se efectuaram até que, finalmente, ficou assente a criação de
uma cintura de protecção em torno da Reserva, do que resultou uma área sob defesa
avaliada em cerca de 12.000 Km2.

Em 1957, por concurso publico, foi adjudicado a Sociedade Comercial de Manica e
Sofala a exploração comercial dos alojamentos existentes — constituídos, na ocasião,
por quartos, restaurantes e bar — contrato esse que, posteriormente, transitou
para a Agência de Viagens e Turismo, tendo esta, por sua vez, mas já em 1964,
sido integrada na recentemente fundada, sob a égide do poderoso Banco Nacional
Ultramarino, "Sociedade de Safaris de Moçambique", ou "SAFRIQUE", que chegou até
aos nossos dias.

O fiscal Sr. Alfredo Rodrigues, manteve-se na Gorongosa durante cerca de 14
anos, e foi ele, sem duvida, quem acompanhou os primeiros passos da sua fase
de protecção a fauna - com proibição de ali se caçar - e de expansão turística -
com admissão de visitantes — desenvolvendo trabalho que chegou a granjear-lhe
apreciável fama, embora tratando-se, de facto, de elemento quase ignorante da
Ciência Biológica e, portanto, dos autênticos problemas que envolvem uma área de
protecção.

c) Fase de Parque Nacional sob jurisdição dos Serviços de Veterinária (1960
a 1975)

Como se sabe, em 1933 efectuou-se em Londres uma "Convenção para proteger,
em África, o solo, a flora, a fauna e os monumentos naturais", organizada e participada
por todos os Países que, ao tempo, detinham colónias neste continente.
A Convenção foi aprovada, ratificada, e Portugal, para lhe dar cumprimento e
execução, fez publicar em 20 de Janeiro de 1955 o conhecido Decreto n°40.040, que
passou a vigorar no chamado, ao tempo, "Ultramar Português", como Lei Geral sobre a
matéria.

Como também é sobejamente conhecido, este Decreto 40.040 introduziu diversas
inovações na protecção da flora, da fauna, dos solos e, ate, das águas interiores, e na
parte que mais nos diz respeito, estabeleceu que os problemas da fauna passariam
para a jurisdição dos Serviços da Veterinária, e os problemas da flora e aguas
interiores para a jurisdição dos Serviços de Agricultura e Florestas.
É de assinalar, no entanto, que o Decreto 40.040 só teve implementação em
Moçambique no ano de 1960, data em que, de facto, os assuntos da fauna foram
transferidos da "Comissão Central de Caça" para os Serviços de Veterinária, que
criaram a Repartição Técnica da Fauna. E, com eles, passou o Parque Nacional da
Gorongosa, tendo sido o médico -veterinário Chefe da Repartição de Veterinária de
Manica e Sofala, Dr. Rodrigues da Costa quem procedeu às formalidades oficiais
da passagem de responsáveis e dos seus imóveis e moveis existentes e, por
acumulação, administrou também o mesmo até 1963.

Em Março de 1963, a administração do Parque Nacional da Gorongosa foi
entregue, também em regime de acumulação, ao Delegado de Sanidade Pecuária de
Chimoio, Dr. Amadeu C. Silva e Costa, que a exerceu até Novembro de 1965.
Já então fora criado o Fundo de Protecção a Fauna — com verbas obtidas através
das receitas próprias do Sector, constituídas pelas taxas e licenças de caça, produto
de multas aplicadas pela fiscalização e da venda de despojos e troféus.
E foi precisamente com fundos dessa origem que o Serviço de Protecção à Fauna
pode dedicar uma apreciável atenção ao desenvolvimento do Parque Nacional da
Gorongosa, especialmente no seu aspecto turístico.

Na verdade, durante o período de administração do Dr. Silva e Costa o Parque
Nacional da Gorongosa sofreu notáveis melhoramentos, no que diz respeito às
instalações do acampamento do Chitengo e outras infra-estruturas de apoio ao
turismo.

Este, devido não só ao incremento que se verificou face ao inicio da
chamada "caça turística" ou "safaris de caça" praticado nas "Coutadas", então criadas
e de cujo numero, de 17, foram, como é sabido, estabelecidas em Manica e Sofala
na maioria — mas também, — e especialmente, devido à melhoria das condições de
acesso, pela asfaltagem da estrada Beira-Rodésia e construção de celebre "ponte
de Tambores" sobre o rio Punguè, em Bué Maria, sofreu, de facto, um notável
incremento. Bastara dizer-se que o número de turistas registados, passou de 1.361 em
1952, para 6.096 em 1960, 8.203 em 1965 e 12.219 em 1968.

O acampamento de Chitengo foi pela primeira vez, dotado de um plano director,
orientado por arquitecto, e ampliado na sua capacidade de alojamentos, passando a
dispor de luz eléctrica abundante, água suficiente, piscina, restaurante, bar, correios,
posto sanitário e pista para aterragem de aviões, e cerca de vedação em arame.
Igualmente, ainda que em fase primária, o Parque Nacional Gorongosa foi dotado
de algum pessoal privativo, embora destacado de outros quadros dos Serviços da
Veterinária. Assim foi, que ali passaram a prestar serviço ajudantes da Pecuária
tratadores de animais e fiscais de caça. Foi durante este período que iniciou no
Parque Nacional da Gorongosa uma propicia e dinâmica acção o, ao tempo, fiscal de
caça de Chimoio, Sr. Celestino Ferreira Gonçalves.

De 1965 a 1968, (*) a Administração do Parque passou, novamente por acumulação,
a ser exercida pelo Chefe da Repartição de Veterinária de Manica e Sofala (Beira), ao
tempo o Dr. Armando Rosinha, que continuou a ser assistido, com o seu proverbial
entusiasmo e eficiência pelo fiscal de caça de Chimoio, Sr. Celestino Gonçalves.

Nessa altura já o orçamento geral do Estado havia previsto o lugar de Administrador
privativo do Parque, a ser obrigatoriamente desempenhado por um médico-veterinário,
mas, no entanto, nunca preenchido por não haver candidatos interessados ao lugar,
dadas as fracas condições de trabalho, de instalações e mesmo de remuneração de
que o mesmo se revestia.

Ate 1965, portanto, o Parque Nacional da Gorongosa não dispunha de pessoal
privativo e as suas tarefas estavam entregues, às de secretaria e contabilidade, ao
pessoal das Delegações de Sanidade Pecuária da Beira ou de Chimoio, e as restantes

aos ajudantes de pecuária, tratadores de animais dos Serviços da Veterinária ou
pessoal assalariado eventual (este a maioria) mas sem qualquer qualificação.
Foi, precisamente nesta fase que redigimos uma informação a propósito e da qual
transcrevemos o seguinte: "Segundo definição legal, Parques Nacionais são áreas
sujeitas a direcção e fiscalização oficial, reservadas para a propagação, protecção
e conservação da vida animal selvagem e da vegetação, e ainda para conservação
de objectos de interesse estético, geológico, pré-histórico, arqueológico e de outro
carácter cientifico, em beneficio e para recreação publica e nas quais e proibido caçar,
pescar, perseguir e espantar animais, destruir ou colher plantas, salvo por iniciativa ou
sob fiscalização das autoridades competentes, acampar ou transitar fora dos locais e
caminhos estabelecidos" — (definição do Decreto nº 40.040).




"Em Moçambique, a única área considerada sob esta jurisdição é o
conhecido "Parque Nacional da Gorongosa", situada no Distrito de Manica e Sofala,
e cuja fama, projecção e conhecimento, ultrapassaram há muito o âmbito provincial e
até nacional.

"O Parque Nacional da Gorongosa é, sem duvida uma realidade, não só sob o
ponto de vista turístico, mas também no aspecto cientifico, e encontra-se por força do
Decreto Lei nº40.040, sob a jurisdição dos Serviços de Veterinária de Moçambique.
"Nestas circunstancias, e porque os quase dois anos já passados nesta
Repartição nos puderam fornecer alguns elementos de apreciação e conhecimento
dos problemas daquele Parque, entendemos apresentar à Direcção de Serviços, para
os devidos efeitos e consideração, alguns pontos que reputamos de fundamental
importância, com vista ao futuro:

"1 — O Parque é um lugar indicado para o estudo da vida, costumes e relações
existentes entre as diversas espécies animais que nele vivem, do balanço natural
entre a flora e a fauna, e das relações de equilíbrio que a natureza mantém,
sabiamente, entre todos os seres vivos de uma comunidade. É local privilegiado
para a realização de estudos respeitantes a biologia da fauna, constituindo assim um
verdadeiro" laboratório", onde devem ser colhidos os elementos indispensáveis para
um controle nacional da fauna das restantes regiões.

"2 — Paralelamente, o Parque e também um local de turismo, onde os homens
possam ter o direito, respeitando embora os Regulamentos, de deliciarem a vista
e recrear o espírito na contemplação das belezas da natureza, entregues a paz e
sossego de uma tranquilidade o mais absoluta possível.

"3 — Mas, fundamentalmente, para além do interesse turístico, há o interesse
cientifico e o Parque Nacional da Gorongosa deve ser, antes de mais nada,
“Laboratório de Investigação Cientifica”.

"Aceites como fundamentais estas três premissas, importa sobremaneira saber
se, na actual estrutura, o Parque estará cumprindo inteiramente as suas finalidades,
supondo nos que, sem paixão nem intuitos derrotistas de apreciação injusta, teremos
que concluir afirmando claramente, mas sem hesitação, que o Parque Nacional
da Gorongosa não está cumprindo a finalidade fundamental que justificou a sua
criação. Para que essa finalidade estivesse atingida seria necessário que ali estivesse
montado, alem do sistema em vigor de exploração comercial de turismo, um serviço
de investigação — que 
falta totalmente — dotado dos indispensáveis técnicos especializados,
com os 
conhecimentos necessários à realização de tais estudos.
Torna-se assim urgente, absolutamente urgente, dotar o Parque Nacional da
Gorongosa de pessoal privativo competente e comportando os seguintes elementos:

a) Admistrador/Director privativo; b) Guardas de caça; c) Fiscais de caça; d) pessoal
auxiliar; e e) Pessoal burocrático.

"(Parece não poder haver dúvidas quanto à necessidade desta providencia, pois
não é de aceitar a situação presente, caracterizada por: a) Não haver Administrador/
Director privativo; b) Não haver guardas de caça privativos; c) Não haver fiscais de caça
privativos; d) O pessoal auxiliar ser insuficiente, não privativo e desqualificado; e) Não
haver pessoal burocrático privativo)".

Trouxemos para aqui esta longa transcrição, duma nossa Informação de 1966, não
só porque ela exprime um inconformismo, que tem sido permanente pela nossa parte,
mas também especialmente porque o seu conteúdo ajudará a compreender algumas
medidas que, posteriormente, foram adoptadas, como veremos.

Entretanto, o desenvolvimento turístico do Parque Nacional da Gorongosa
prosseguia, sempre como preocupação dominante. 0 Parque será como que
uma "montra" da Colónia e nenhum visitante oficial vinha a Moçambique sem que o seu
programa de visita incluísse uma estadia no Chitengo...

Nessa altura, por isso, o Chitengo passou a dispor de acomodações para receber
cerca de 100 turistas (tendo chegado a alojar 150 em diversas ocasiões), e um
restaurante que servia 300/400 refeições por dia, um bar bem abastecido, um salão
para repouso e festas, uma piscina para adultos e outra para crianças, posto de
abastecimento de combustíveis, posto de socorros, estação telegrafo-postal, etc. Mas
continuava sem dispor de técnicos, de laboratório, de biblioteca, de elementos científicos,
enfim, susceptíveis de lhe dar outra feição, para alem da de empresa hoteleira...

Também se ampliaram as áreas susceptíveis de serem visitadas, alargou-se a
rede de picadas (de cerca de 150 Km, para perto de 300 Km), abriram-se picadas para
o Macorreia, para o limite Norte no rio Nhandue, ao longo do rio Urema na sua parte
terminal, e para as planícies do Ding-Ding.

É altura, portanto, de referirmos algumas das medidas, então tomadas, e de que
falámos mais acima.

A Direcção dos Serviços, já nessa altura fortemente pressionada por opiniões
diversas, mas especialmente por sentir 
que o Parque Nacional da Gorongosa passara a ser, de facto, factor de prestigio 

pessoal para os próprios dirigentes, tomou as seguintes decisões, reconhecidamente 

acertadas para a época:


1— Organizou o Parque, dotando-o de pessoal privativo fixado, desde então, no
próprio Chitengo;

2— Nomeou um Administrador privativo, um medico-veterinário vindo de uma
secretaria de Lisboa, bem intencionado sem duvida, mas completamente ignorante e
alheio aos verdadeiros problemas de um Parque Nacional;

3 — Contratou um ecólogo sul-africano, o Dr. K.L.Tinley, para proceder aos estudos
de base sobre a fauna bravia do Parque e possibilitar assim que se publicasse
uma "monografia" sobre o mesmo, reconhecida sempre como falta importante; A—
Criou o cargo de "guarda de Parques, Reservas e Coutadas" e preencheram-se
alguns lugares com os elementos colocados no Chitengo; 5 — Enfim, a secretaria,
contabilidade, aprovisionamento, e outras actividades afins, ficaram instaladas
definitivamente no Chitengo.

Foi nesta fase que alguns elementos dedicados deram ingresso nos Serviços da
Fauna e do Parque, e puderam desenvolver acções para alem das relacionadas com o
sagrado "turismo". Desses, alguns ainda aqui se encontram hoje, como os Srs. Lobão
Tello, Fernando Costa, Justino Matias, Elija Chamba, Pedro Manussos, por exemplo.
Foi uma fase importante na vida do Parque, mas muito mais haverá a dizer sobre
ela, uma vez que nem tudo pode desenvolver-se de acordo com os programas por
alguns idealizados, o que tem a sua explicação — na nossa opinião — pela autentica
indefinição de responsabilidades e de objectivos em que sempre se viveu.

Assim, o novo Administrador não podia, pelas razoes já aduzidas, ser um autêntico
Director do Parque. A Direcção sobrepunha-se constantemente ao próprio Serviço da
Fauna, fazendo prevalecer decisões e ideias nem sempre felizes.

0 ecólogo contratado, sem direcção forte e programa estabelecido, dentro dos
objectivos para que fora recrutado, lançou-se em trabalhos, validos sem duvida»
mas carecentes de referência e por vezes, mesmo, afastados dos mais prementes
problemas do Parque, que assim permaneceram sem solução.

No entanto, o Dr. Tinley lançou-se entusiasticamente no estudo dos limites
ecológicos do Parque, tendo, logo ao cabo de pouco tempo de permanência no
Chitengo, apresentado um extenso relatório, de excelente conteúdo técnico e cientifico
e que veio, realmente, colocar-nos a todos perante novas concepções, até então quase
que ignoradas pela maioria dos que ali trabalhavam.

Esse relatório, "Parque Nacional da Gorongosa - Moçambique - Limites Ecológicos
- Manutenção da Natureza Bravia" — foi apresentado ao Governo, acompanhado por
uma Informação que então elaborámos, e da qual transcrevemos o seguinte: "1. 0 Dr.
Tinley iniciou os seus estudos no Parque, debruçando-se sobre o problema dos seus
limites ecológicos, tendo apresentado extenso e valioso relatório sobre a matéria; "2.
Como é sabido, os limites geográficos do Parque Nacional da Gorongosa sofreram
já diversas alterações mas nenhuma delas resultante de estudos tendo em vista
exclusivamente os altos interesses da fauna que o povoa, nas suas relações com o
respectivo meio ambiente;

"3. Assim é que uma das alterações dos limites tem como razão principal a
introdução de áreas onde se dizia haver rinocerontes, espécie que se desejava fosse
valorizar o património faunístico do Parque; outra alteração, mais recente, teve em mira
retirar do Parque, uma área, do lado da Vila Paiva de Andrade, densamente povoada
pelo elemento humano;

"4. Os estudos agora efectuados pelo Dr. K.L. Tinley, vieram
na verdade colocar o problema no seu verdadeiro lugar, dentro daquilo que, a luz de
princípios científicos universalmente aceites, deverá entender-se por um autêntico
Parque Nacional;

"5. Nesta conformidade, apresenta no seu relatório uma Proposta
para nova alteração dos actuais limites do Parque, baseada nos estudos hidrológicos
da respectiva área e ainda e outros, factores relacionados com as regiões limítrofes,
que permitirão constituir, caso venham a ser aceites, um Parque, segundo o autor
afirma, com características únicas no continente africano;

"6. Resumiremos assim, as conclusões e sugestões contidas no referido relatório:
a)
— Os estudos da bacia hidrológica do Parque Nacional da Gorongosa
mostram que toda a sua vida natural depende das nascentes que abastecem os cursos
de água permanente, que emanam da serra da Gorongosa e, portanto, para salvar esta
fonte de vida é necessário incluir a maior parte da serra no referido Parque.

b)
- Atendendo a que as populações humanas que vivem dentro dos actuais
limites oficiais e as que estão incluídas dentro dos limites que agora sugere e propõe,
além de constituírem elemento decididamente perturbador do equilíbrio natural, são
razões suficientes para que, às áreas que ocupam, 
deixem de poder, efectivamente,


 aplicar-se a própria definição de Parque Nacional, 

consagrada internacionalmente, 

e pelo Decreto nº 40.040, deverão ser retiradas o mais 

urgentemente possível.


c) - Tendo concluído que a área da Coutada n°10, constitui o único refúgio para os
ungulados da "Reserva de Búfalos de Marromeu", durante a época das chuvas, em que fica
quase totalmente debaixo de água, sugere que aquelas duas áreas (Coutada n° 10 e
Reserva de Búfalos), sejam incluídas no Parque.

d) - Tendo ainda concluído pela existência de altos interesses de ordem natural na área
que chamou "enclave de Cheringoma" — que se situa entre o Parque e.a Coutada nº 10 —
sugere também a inclusão deste "enclave", providência de que resultaria um conjunto de
ecossistemas excepcional, com áreas da serra, da planície, do planalto de Cheringoma, e
de zona costeira, único, segundo afirma, hoje praticável em toda a África.

e) — Atendendo a que a construção da estrada nacional nº 1, projectada para ligar Vila
Paiva à povoação de Maringue, a seguir pelo lado leste da serra, dividirá o Parque em duas
partes, com inconvenientes de ordem natural evidentes, deverá propor-se que a referida
entrada seja desviada para oeste da serra, o que se afigura vantajosos não só por obviar
dos inconvenientes apontados, mas também por resultar mais económico, porque apesar
de alongar o trajecto em 3 ou 4 dezenas de quilómetros, obrigaria a construir, apenas, 4
obras de arte, enquanto que o trajecto do projecto actual obrigará à construção de 24.

f) — Ainda no que diz respeito ao Parque Nacional da Gorongosa mas em âmbito mais
particular, propõe as seguintes medidas:

— Que não sejam feitas quaisquer construções, ou acampamentos, dentro dos seus
limites, - principio que, aliás, preconiza para todos os Parques e Reservas, devendo antes
aquelas benfeitorias ser localizadas na periferia dos respectivos limites, de preferência junto
de vilas já existentes, que assim seriam valorizadas com um novo e forte impulso de
progresso e valorização económica.

- Além de que, sendo tais benfeitorias, (construções para instalações turísticas),
efectuadas por entidades particulares, deixariam os fundos do Estado, libertos para
aplicação num mais perfeito conhecimento, controle e manutenção, da fauna bravia e da
natureza. (Um primeiro acampamento seria construído em Vila Paiva, um segundo, em
Inhaminga, e um outro na Muanza... ) . — A área a sudoeste, no sopé da serra, onde já
existem agricultores fixados, não deve ser incluída no Parque, mas sim e apenas a área
de floresta existente no seu topo. — A missão católica, as povoações e os
estabelecimentos comerciais existentes, devem ser transferidos, com as populações das
respectivas áreas.

g) - Finalmente, o relatório, conclui que o futuro dos Parques e
Reservas depende de uma fiscalização eficiente e esta só existirá com bons
profissionais, pelo que se torna necessário formá-los, pagar-lhes bem e prestigiá-los,
visto só dessa maneira se impedir que os melhores sejam levados para a actividade
particular, melhor remunerada". Sobre este Relatório, e na Informação que então
prestámos aos nossos superiores hierárquicos, escrevemos ainda mais o seguinte:

— "O relatório a que nos vimos referindo, e cujas conclusões aceitamos na
generalidade, vem colocar-nos perante uma concepção de Parques e Reservas diferente
da que tem sido seguida em Moçambique.
— As inovações propostas são perfeitamente pertinentes e oportunas, pois
baseiam-se em estudos com base na Ecologia, e em sãos princípios de conservação da
natureza.
— No entanto, para as pôr em prática, totalmente, existem implicações que
transcendem as nossas atribuições e possibilidades.
— Com efeito, o que se propõe em relação ao Parque Nacional da Gorongosa, a ser
realizado, transformaria aquele já famoso santuário de fauna bravia numa realidade
indubitavelmente mais valorizada, mas exigiria medidas de larga envergadura que só a
nível muito superior poderão ser decididas.
— Importa no entanto apresentá-las e ampará-las, não apenas porque são válidas,
mas ainda porque constituem uma toma da de posição oportuna, dos Serviços, que
doutra forma poderão vir a ser acusados de terem ignorado o problema, apesar de para
o mesmo haverem sido alertados.




-Afirmamos a convicção de que o futuro da sobrevivência da fauna bravia em
Moçambique — na medida em que venha a processar em ritmo acelerado, como convém
e se impõe, o desenvolvimento do seu território através de actividades agro-pecuárias
e industriais — só poderá ser viável se forem estabelecidos antes disso, os necessários
Parques e Reservas com as áreas absolutamente vedadas a quaisquer outros fins.
— Assim, acarinhamos a ideia da necessidade de, imediatamente, serem tomadas
medidas decisivas no sentido de: Ou criar uma estrutura de Parques e Reservas
com autêntica base cientifica, da qual resultaria evidente valorização do património
natural de Moçambique, e consequente prestígio internacional nos meios ligados
ao assunto; Ou manter as actuais estruturas — na verdade demasiado empíricas e
constrangedoramente "amadoras", mas certamente adequadas aos meios disponíveis
— correndo-se o risco, no futuro, de nos acusarem, e com razão, de imprevidência na
execução de medidas que nos cabe praticar no campo da protecção da natureza"
Terminávamos então propondo:

"— Que sejam adoptadas as seguintes medidas resultantes do relatório do Dr.
K.L.Tinley, cuja execução será posta em prática, evidentemente, a medida que forem
sendo obtidos os meios necessários para o efeito:

1
— Inclusão da Serra da Gorongosa na área do Parque Nacional da Gorongosa.



2
— Retirada gradual das populações ali fixadas.



3
— Alteração do projecto da estrada nacional nº1,no troço compreendido
entre Vila Paiva e Maringue por forma a que siga o lado oeste da serra. A — Colocação
da área da Coutada nº10 e do enclave de Cheringoma em regime de reserva total, com
impedimento de nelas serem autorizados quaisquer projectos de aproveitamento ou
fixação de polos de povoamento com vista à sua posterior inclusão no Parque Nacional da
Gorongosa.
"- Esta informação e o relatório que lhe deu origem, foram apreciados em reunião do
Conselho de Governo, presidido pelo Governador Geral Baltazar Rebello de Sousa, e
daí resultou um despacho sancionando, na generalidade, as propostas apresentadas e
nomeando as diversas comissões para tratar dos pormenores mais particularizados.

"- No entanto, somente em 1 de Julho de 1971, já sob a presidência do Governador-
Geral Eng. Arantes e Oliveira, se realizou uma reunião de alto nível, à qual assistimos
também e secretariámos, e em que foram estabelecidos as seguintes conclusões:

A — Conclusão relativa ao aspecto faunístico:

A Direcção dos Serviços de Veterinária, com a colaboração do Governo do Distrito
da Beira, continuará e incrementará a valorização do Parque Nacional da Gorongosa no
aspecto da protecção da natureza e que se podem resumir nos seguintes pontos:

1
— Alteração dos limites do Parque para os propostos pelo Dr. Tinley, com os
necessários ajustamentos.

2
— Deslocação progressiva das populações da região de Goínha e Nhantaze,
preparando-se para estas as necessárias infra-estruturas sócio-económicas em locais
adequados.

3
— Na Serra da Gorongosa não se fará deslocação das populações mas sim uma
maior fiscalização, defesa e protecção das nascentes de água e apoio e ensino às
populações, de forma a evitar a erosão.

4
— Deslocação para fora dos limites do Parque da Missão e cantina ali existentes;



5
— Estudo e resolução das concessões existentes dentro do Parque.
Sua Excelência o G.G. frisou e determinou que, na deslocação das populações se
deveria evitar, por todos os meios, formas de actuação que provocassem qualquer espécie
de atritos com as mesmas.

B — Conclusão relativa aos acessos:

1
- Desvio da estrada nacional n° 1 de Vila Paiva para Maringué, passando esta a
poente da Serra;

2
- Melhoria dos acessos — Vila Paiva e Inhaminga;



3
— Melhoria do campo de aviação existente em Vila Paiva, mas não sendo de
encarar atribuir-lhe voos alem dos de "Friendship".

4
- Estudo e possibilidades de acesso pelo rio Punguè, como atractivo turístico.

C - Conclusão de natureza turística:

Na falta de recursos financeiros e de planos detalhados para o aproveitamento
turístico do Parque, será de encarar a entrega do estudo, posterior execução do
empreendimento e exploração turística do Parque a entidades privadas, mas sempre
com a intervenção da Administração, quer na orientação a dar-se ao estudo quer na
realização de capitais.

Como orientação fundamental deste estudo haverá que encarar, primordialmente, os
aspectos ligados à protecção da natureza. (0 G.G., o Secretário Provincial da Economia,
ficaram de, pessoalmente, estabelecer contactos nesse sentido com entidades
financeiras, nomeadamente B.N.U., Instituto de Crédito, Grupo CUF e outros).

D — Conclusão sobre ampliação e melhoria do acampamento do Chitengo:

Foi reconhecido, independentemente do estudo e futura valorização turística do
Parque, a necessidade imediata da ampliação e melhoria do actual acampamento do
Chitengo, tendo em vista a enorme afluência de turistas que actualmente se verifica,
e que ali se não podem alojar. Acordou-se ainda que esta ampliação deveria ser de
carácter rústico, e de acordo com o meio ambiente. As mesmas características deverão
ser imprimidas a futuros acampamentos.

Recordemos que, a esta Reunião de l/Julho/971, assistiram além do Governador
Geral Arantes e Oliveira, os Secretários Provinciais de Terras e Povoamento, da
Economia, das Obras Publicas, o Governador de Distrito da Beira, o Director do Centro
de Informação e Turismo e o autor destas linhas em representação da R.T. da Fauna da
Direcção dos Serviços de Veterinária).

Recordemos ainda que, nessa altura, começaram a surgir na Beira, e na área do
seu Distrito, problemas agudos relacionados com a expansão da Luta de Libertação
Nacional, que então havia chegado à região. Daí resultaram, sem dúvida, duas atitudes
governamentais que vieram a decidir a forma como se encaminhou a implementação
das "conclusões" contidas no documento que atrás recordamos:

1 - A de manter o Parque - e mantê-lo aberto - como expressão de soberania colonial
e de prestígio, uma vez que o número dos seus habitantes aumentou substancialmente.

2 - Desenvolver actividades de ordenamento das populações, através dos
conhecidos "aldeamentos", alguns dos quais foram projectados e iniciados em áreas
pertencentes ao Parque e, por outro lado, uma atitude "paternalista" que levou a considerar
os programas da protecção à fauna como causadores directos de descontentamento das
populações e, portanto, favorecendo a "subversão".

As providencias que então foram tomadas, podem resumir-se pela forma seguinte:

"1 - A questão de estudo e implantação dos novos limites, - claro que sem considerar na
totalidade o projecto do Dr. Tinley — foi entregue ao Gabinete de Estudos Agrários, a cargo
de burocratas desligados da Fauna, e de cujos trabalhos não chegaram a ser aprovados os
resultados: portanto os limites anteriores foram mantidos ;

2— A deslocação das populações de Goínha e Nhandaze, foi igualmente entregue
àquele Gabinete de Estudos Agrários, com a colaboração da chamada "Junta de
Povoamento" e, depois de consumidas avultadas verbas, nada de concreto resultou
também, continuando as populações onde e como se encontravam.

3— A Serra da Gorongosa não foi incluída e, antes pelo contrário, foi sistematicamente
invadida, nas suas vertentes e margens dos rios pelas populações que pretendiam fugir aos
aludidos "aldeamentos", não se fazendo portanto qualquer fiscalização, defesa e protecção
das nascentes.

A — As cantinas e concessões existentes, foram, de facto, retiradas do Parque e os
seus proprietários amplamente indemnizados.

5- A estrada nacional n° 1 tem o seu traçado alterado e isso resultou, na verdade, num
grande benefício para o Parque, o único, positivo, que terá saído de toda aquela grande
movimentação de meios.

6- Os acessos a Vila Paiva e Inhaminga não sofreram qualquer melhoramento.

7-O campo de aviação de Vila Paiva não foi melhorado e, portanto,
os "Friendships" continuaram a não poder la aterrar...

8- E, finalmente, não se fez estudo da possibilidade de acesso ao Parque por
barco, pelo rio Pungue, não tendo esta ideia passado de uma optimista e remota
possibilidade.

9- Não conhecemos qualquer resultado positivo dos contactos que possam
ter havido entre o Governo e entidades privadas e entidades financeiras para
melhoramento das infra-estruturas turísticas embora seja certo que algumas
iniciativas foram esboçadas para a construção de grandes acampamentos turísticos,
nomeadamente em Bué Maria. (por parte da Safrique), e na nova ponte sobre o rio
Pungué (por parte doutro grupo financeiro).

10 —Igualmente, também, nada se faz para ampliar e valorizar as velhas
instalações do Chitengo, nem com carácter rústico nem com qualquer outro... e,
portanto, tudo quanto fora resolvido não país sou do papel onde foi registado...
Entretanto, entravamos já em 1972 e o Administrador do Parque, Dr. Romão,
abandonou o lugar e foi imediatamente substituído por um jovem médico veterinário,
recém diplomado na Faculdade de Veterinária do então Lourenço Marques, o
Dr. Albano Cortez. Esta nomeação revela que se continuava a menosprezar os
verdadeiros interesses do Parque, da fauna bravia e da conservação da natureza,
entregando a direcção de assuntos tão importantes a um técnico que havia recebido
preparação — mas para tratar e criar animais domésticos - ainda sem qualquer prática.
No entanto, como sempre, prevaleceu a opinião dos mais altos dirigentes, contra o que
pensavam os poucos, realmente, ligados à fauna e ao Parque.

Por essa altura a guerra de libertação atingiu mesmo a região de Gorongosa e
Inhaminga e, mais uma vez contra a opinião dos responsáveis mais directos pela
fauna, os governantes decidiram que o Parque — grande polo de prestígio — deveria
manter-se aberto ao turismo, devendo para isso implementar-se a necessária defesa
que assegurasse a tranquilidade dos visitantes.

E então assistimos - impotentes para lhe opor qualquer resistência que fosse além
das palavras e das ideias - ao es
tabelecimento, no Parque Nacional da Gorongosa dos seguintes 


dispositivos militares 

e afins:


a) - 
No Chitengo, ficou instalada uma Companhia de tropa portuguesa, com a
missão de defender, militarmente, e dentro da estratégia geral da região, a área do
Parque.

b) - 
A Organização Provincial de Voluntários (O.P.V.).foi encarregada de velar
pela segurança do acampamento do Chitengo, dos Postos de Fiscalização e da
segurança dos turistas.

Fácil é compreender a confusão reinante no Chitengo, transformado em quartel e,
ao mesmo tempo, sempre cheio de turistas...

Além disso, o grupo da O.P.V., recrutado na então cidade de Lourenço Marques,
era composto por elementos marginais oriundos das piores alfurjas da capital. E os
seus comandantes não eram muito melhores revelando-se todos, e por isso, como
inimigos do Parque e da fauna, caçando desenfreadamente para se alimentarem ou
para negócio, estragando viaturas e material e indisciplinando e confundindo ainda
mais as populações residentes.

Foi um período mau, muito mau mesmo, e que só veio a terminar com a
Independência Nacional.

Apesar de tudo isto — direi melhor, e mesmo com tudo isto — o Parque conseguiu
vencer, resistir e manter-se! Não temos dúvidas de que, especialmente devido ao seu
valor intrínseco.

Nos tempos da nossa ligação directa ao Parque, quando algum visitante nos
abordava — antes de percorrer as picadas, ou mesmo ainda na Beira, antes de
conhecer a Gorongosa, mas tendo dela já uma ideia lendária e de propaganda —
ansioso por adivinhar como decorreria a sua visita (se teria sorte, se o Parque,
naquela época estava bom, se continuava a haver muitos animais, se o acampamento
servia bem, etc.), nos respondíamos sempre, mais ou menos, assim: Vá o Sr.
tranquilo, pois no Parque há uma "entidade" que cumpre sempre a sua obrigação para
com os turistas, e essa entidade são precisamente os animais, que, tenho a certeza,
não o deixarão desiludido.

Quanto ao resto... bem, aquilo que depende do homem revela bastante
insuficiências e imperfeições, mas há que compreendê-las!

(ARQUIVO. Maputo (Moçambique), 6: 211-238, Outubro de 1989.)


                                                       *   *   *   *   *
                                                            *   *   *
                                                                 *
(*) - O período a que o autor de se refere está errado. O correcto é 1965/1967. Neste último ano entrou em funções do Dr. Francisco Prestes Romão, médico veterinário, que foi o primeiro Administrador residente do PNG. (NOTA DO ADMINISTRADOR DO BLOG)


Ver também em: 


                                                         - III -

2010 - Departamento de Comunicação do PNG

Compilação de dados históricos a partir de 1920 até 2003 e informações sobre a restauração do Parque (período de 2004 a 2010) pelo Projecto subsidiado pela Fundação Carr e dirigido pelo seu presidente, o filantropo americano Greg Carr. 

Este conjunto de dados, abaixo inseridos, encontra-se publicado na Web Site oficial do PNG: 


História
Origens


1920-1940

Desde muito cedo a paisagem dramática e a rica fauna bravia da região da Gorongosa atraíram caçadores, exploradores e naturalistas. O acto oficial com vista a proteger este esplendor apareceu pela primeira vez em 1920, quando a Companhia de Moçambique ordenou que 1.000 quilómetros quadrados fossem conservados como uma Reserva de Caça para os administradores da companhia e seus visitantes. A Companhia controlava toda a região central de Moçambique entre 1891 e 1940, tendo sido esta área concedida pelo Governo de Portugal.
Pouco se conhece sobre os primeiros anos da Reserva, com excepção de que a partir de uma dada altura, um certo homem de nome José Ferreira começou a residir numa casa coberta de colmo no Chitengo incumbido de  proteger a fauna bravia. Em 1935, o Sr. José Henriques Coimbra foi designado administrador e o senhor Ferreira tornou-se no primeiro guia turístico. Naquele mesmo ano, a Companhia de Moçambique alargou o espaço da Reserva para uma área de 3.200 quilómetros quadrados para proteger o habitat de Inhalas (uma espécie de antílopes) e Rinocerontes pretos, ambos  troféus de caça muito apreciados.
Uma carta escrita por um oficial da Companhia de Moçambique em 1935 mostra claramente que nos primeiros anos, a Reserva era para um pequeno grupo de caçadores, e não propriamente um santuário de vida selvagem. “Uma visita à Beira será em breve feita pelo Cruzador Britânico CARLISLE, que consistirá numa jornada de caça para os respectivos oficiais nas planícies abertas de Gorongosa,” assim escreveu o oficial para o administrador local.
Recomenda-se que o Administrador tome as medidas necessárias de modo a garantir que os ilustres visitantes não encontrem os animais muito excitados ou dispersos, o que tornaria difícil o êxito da caçada.
Em 1940, a Reserva já se tornara bastante famosa, uma nova administração e um campo turístico foram construídos nas planícies perto do Rio Mussicadzi. Infelizmente este sítio teve que ser abandonado dois anos mais tarde, devido a grandes cheias na época das chuvas. Os leões tomaram conta das construções abandonadas e o lugar tornou-se num grande atractivo turístico por muitos anos, conhecido com o nome de Casa de Leões.

1941-1959

Depois do término do contrato da Companhia de Moçambique, a gestão da Reserva passou para as mãos do governo colonial. Sob a administração do Capitão Pinto Soares, o fiscal Alfredo Rodrigues tomou os primeiros passos oficiais com o objectivo de banir as caçadas e de estabelecer um negócio turístico viável.
Em 1951 começaram outras construções de uma nova administração e acomodações no Chitengo, incluindo um restaurante e um bar. No mesmo ano, o governo aumentou mais 12.000 quilómetros quadrados da zona de protecção à volta da Reserva para mitigar os impactos da estrada da Beira para Rodésia, que passava por Chitengo. Até aos finais de 1950  mais de 6.000 turistas visitavam anualmente a Reserva e o governo colonial tinha atribuído a primeira concessão de turismo no Parque.
Em 1955, o governo colonial decretou que a Divisão dos Serviços de Veterinária assumisse o controlo sobre a gestão de toda a fauna e flora bravia em Moçambique, incluindo a Gorongosa. A Gorongosa foi nomeada Parque Nacional pelo governo  português, em 1960.


 O Apogeu

1960-1980


Em 1960, após reconhecer que a reserva necessitava de mais protecção ecológica formal e mais instalações para a actividade turística crescente, o governo português declarou a reserva e mais 2.100 quilómetros quadrados de terra (um total de 5.300 quilómetros quadrados), um Parque Nacional.

O novo Parque deu passos significativos de melhorias, arrancaram construções de estradas e outras infra-estruturas. Entre os anos de 1963 e 1965, as instalações de Chitengo foram alargadas para acomodar pelo menos 100 turistas. Durante esse período o Chitengo passou a dispor de duas piscinas, um bar e um salão de festas, um restaurante com capacidade de servir entre 300-400 refeições por dia, uma estação de correios e uma estação de abastecimento de combustível, uma clínica para urgências, e uma loja para vender objectos artísticos locais.
As receitas das licenças de caça e as taxas de caça em qualquer parte de Moçambique contribuíram para este progresso do Parque. No mesmo período, a pavimentação da estrada Beira-Rodésia e a construção da ponte sobre o rio Pungué, em Bué Maria, ajudou a duplicar o número de visitantes.
Igualmente nos finais dos anos 60, realizaram-se os primeiros estudos científicos básicos do Parque, conduzidos por Kenneth Tinley, um ecologista sul-africano. Na primeira contagem efectuada com meios aéreos, Tinley e sua equipe registaram cerca de 200 leões, 2.200 elefantes, 14.000 búfalos, 5.500 bois-cavalos, 3000 zebras, 3.500 pivas, 2.000 impalas, 3.500 hipopótamos e manadas de centenas de elandes, pala-palas e gondongas.
Tinley também descobriu que muitas pessoas e muita vida selvagem residente dentro e nos arredores do Parque Nacional, depende de um rio, o Vunduzi, que nasce nas vertentes da montanha de Gorongosa. Porque a montanha estava fora das linhas fronteiriças do Parque, Tinley propôs a expansão das fronteiras, de maneira a incluir a montanha por ser o elemento chave do Grande Ecossistema da Gorongosa, com cerca de 8.200 quilómetros quadrados. Ele e outros cientistas e conservacionistas ficaram desapontados em 1966 quando o governo reduziu a área do Parque para 3.770 quilómetros quadrados. A razão oficial para a redução era porque os camponeses locais precisavam de mais terras para suas práticas agrícolas. Tinley viu a situação de outra maneira. Ao apontar para o desaparecimento de muita vida selvagem em várias zonas circunvizinhas, ele acreditou que a razão verdadeira da redução da área do Parque era para facilitar o trabalho dos caçadores locais. “A fome deles era de proteínas, e não de terras,” disse Tinley.
Simultaneamente, Moçambique estava no meio da guerra de libertação iniciada em 1964 pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Felizmente a guerra teve pouco impacto no Parque Nacional da Gorongosa até 1972, quando uma Companhia Portuguesa e membros da Organização Provincial de Voluntários se instalou no Parque para protegê-lo. Nessa altura não foram causados muitos danos, embora alguns soldados caçassem ilegalmente. Em 1972, enquanto a guerra estava ainda em curso, o Parque tinha cerca de 200 leões, 14.000 búfalos, 5.500 bois-cavalos, 3.500 hipopótamos, e mais de 2.000 elefantes. Em 1976, um ano depois de Moçambique estar independente de Portugal, contagens aéras do Parque e do delta do rio Zambeze indicavam aproximadamente 6.000 elefantes e cerca de 500 leões, provavelmente a maior concentração de leões em toda África.
Em justo reconhecimento do progressivo desenvolvimento e reputação da fauna do Parque e da importância de conservar este bem em Moçambique, em 1981, o governo da Frelimo escolheu o Parque para acolher a Primeira Conferência Nacional sobre a Fauna Bravia.


A Guerra Civil

1981-1994


A paz em Moçambique não foi duradoira. A África do Sul começou a financiar e armar uma tropa de rebeldes para desestabilizar Moçambique. Em Dezembro de 1981, pela primeira vez, o Parque Nacional da Gorongosa sentiu a pesada fúria da guerra, quando os soldados da Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) atacaram o acampamento de Chitengo e raptaram muitos dos seus trabalhadores, incluindo dois cientistas estrangeiros.
A partir daquela data, a violência dentro e nos arredores do Parque aumentou. Em 1983, o Parque foi encerrado e abandonado. Durante nove anos, o Parque Nacional foi palco de frequentes batalhas entre as forças opostas. A violenta batalha terrestre, e os bombardeamentos aéreos destruíram todas as construções. Os grandes mamíferos do Parque sofreram terrível destruição. Os dois beligerantes dizimaram centenas de elefantes para retirar o marfim, que vendiam para obtenção de mais armas e outros equipamentos bélicos. Soldados famintos mataram muitos milhares de zebras, bois-cavalos, búfalos e outros animais ungulados. Os leões e outros grandes predadores foram mortos em caçadas desportivas ou morreram por fome por causa do desaparecimento das suas presas.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas residentes dentro e nos arredores do Parque foram mortas ou espancadas, especialmente pela RENAMO, já nos últimos anos da guerra, quando grande parte do distrito de Gorongosa estava sob controlo dos rebeldes. Muitos refugiaram-se dentro do Parque. Famintos de carne, caçavam a seu belo prazer, contribuindo assim para aniquilamento da fauna bravia.
A guerra civil terminou em 1992, mas a caça furtiva no Parque, principalmente por caçadores vindos da Beira, continuou por mais dois anos. Por essa altura, as enormes populações de mamíferos de grande porte, incluindo elefantes, hipopótamos, búfalos, zebras e leões, já tinham sido reduzidos em 90% ou mais. Felizmente, as espectaculares aves do Parque saíram relativamente ilesas.

A Recuperação

1995-2003


O esforço preliminar para reconstruir a infra-estrutura do Parque Nacional da Gorongosa e restaurar a sua vida selvagem começou em 1994, quando o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) iniciou um plano de reabilitação - com a assistência da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Foram contratados 50 funcionários novos, a maior parte deles, ex-combatentes. 
Baldeu Chande e Roberto Zolho, ambos empregados do Parque antes da guerra, voltaram para assumir cargos de liderança. Chande era director do programa de emergência e Zolho era coordenador da fauna e flora bravias, assim como da fiscalização. "Concluímos que todas as espécies que havia no Parque antes da guerra ainda existem", afirmou Chande a um repórter em 1996. "Nenhuma se encontra extinta mas muitas estão representadas em muito menor número do que antes." 
Num período de cinco anos, esta iniciativa do BAD reabriu cerca de 100 km de estradas e caminhos e formou fiscais na luta contra a caça ilegal.

Começar de Novo

De 2004 ao Presente


Em 2004, o Governo de Moçambique e a Carr Foundation, com sede nos EUA, acordaram unir esforços no sentido de reconstruir a infra-estrutura do Parque, restaurar a sua fauna e flora bravias e estimular o desenvolvimento económico, dando assim início a um novo e importante capítulo da história do Parque.
Entre 2004 e 2007, a Carr Foundation investiu mais de dez milhões de dólares neste esforço. Durante este período, a equipa do projecto de restauração do Parque criou um Santuário de Fauna Bravia de 6.200 hectares e reintroduziu búfalos e bois-cavalos no ecossistema. Também foi nesta altura que se começou a restaurar o Acampamento de Chitengo.
Dado o sucesso deste projecto inicial de três anos, o Governo de Moçambique e a Carr Foundation (que passou a designar-se "Gorongosa Restoration Project") anunciaram em 2008 a assinatura de um acordo para restaurar e co-gerir o Parque nos próximos 20 anos.
A dedicada equipa de cientistas, engenheiros, gestores de negócio, peritos em economia e programadores de turismo que agora trabalha na restauração do Parque Nacional da Gorongosa está confiante de que com trabalho árduo, com o desenvolvimento da população local e com os rendimentos provenientes do ecoturismo, esta zona espectacular irá reencontrar a glória que teve em tempos.
Em Julho de 2010, o Governo de Moçambique decidiu alterar os limites do Parque Nacional da Gorongosa e incorporar a Serra da Gorongosa (acima dos 700 metros) dando assim satisfação a uma velha aspiração que tinha sido apresentada nos anos 60 pelo então ecologista do PNG, Kenneth Tinley. 
O Parque passou a ter uma área de 4.067 quilómetros quadrados e o Governo decidiu também estabelecer oficialmente uma zona tampão com cerca de 3.300 quilómetros quadrados.



- IV - 

2010 - WIKIPÉDIA

COMPILAÇÃO E PUBLICAÇÃO DE DADOS NO SITE OFICIAL DESTA ENCICLOPÉDIA VIRTUAL




Parque Nacional da Gorongosa

Reencaminhado a partir de Gorongosa · Ponto de referência

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Parque Nacional da Gorongosa é uma área de conservação situada na zona limite sul do Grande Vale do Rift Africano, no coração da zona centro de Moçambique.
O Parque, com um pouco mais de 4000 km², inclui o vale e parte dos planaltos circundantes. Os rios que nascem no vizinho Monte Gorongosa, que atinge os 1863 metros de altura, irrigam a planície. Em 20 de Julho de 2010 o governo moçambicano decidiu alargar a área do parque para 4.067 km², bem como criar uma zona tampão de 3,30 km² à sua volta
As cheias e inundações sazonais do vale, que é constituído por um mosaico de diferentes tipos de solo, criam uma diversidade de ecossistemas distintos. As pradarias são salpicadas por áreas de acáciassavana, floresta seca em zona de areias, lagunas enchidas sazonalmente pelas chuvas e moitas nos montículos erigidos pelastérmitas. Os planaltos contêm florestas de miombo e de montanha e uma espectacular floresta húmida no sopé de uma série de desfiladeiros calcários.
Esta combinação de características únicas suportava outrora uma das mais densas populações de vida selvagem de toda a África, incluindo carnívoros carismáticos, herbívoros e cerca de 500 espécies de pássaros. Mas os números dos grandes mamíferos foram reduzidos para mais de 95% e os ecossistemas foram largamente afectados pelos cerca de trinta anos de guerra civil em Moçambique.
A Fundação Carr/Gorongosa Restoration Project, uma organização não lucrativa dos E.U.A., associou-se ao Governo de Moçambique para proteger e restaurar o ecossistema do Parque Nacional da Gorongosa e para desenvolver uma indústria de ecoturismo para beneficiar as comunidades locais.

História

Reserva de Caça: 1920-1959

O acto oficial com vista a proteger a região de Gorongosa apareceu pela primeira vez em 1920, quando a Companhia de Moçambique ordenou que 1.000 quilómetros quadrados fossem conservados como uma reserva de caça para os administradores da companhia e seus visitantes. A Companhia controlava toda a região central de Moçambique entre 1891 e 1940, tendo sido esta área concedida pelo Governo de Portugal.
Em 1935, o Sr. José Henriques Coimbra foi designado administrador e o Sr. José Ferreira tornou-se no primeiro guia turístico. Naquele mesmo ano, a Companhia de Moçambique alargou o espaço da Reserva para uma área de 3200 quilómetros quadrados para proteger o habitat de Inhalas e Rinocerontes pretos, ambos troféus de caça muito apreciados. Em 1940, a Reserva já se tornara bastante famosa, uma nova administração e um campo turístico foram construídos nas planícies perto do Rio Mussicadzi. Infelizmente este sítio teve que ser abandonado dois anos mais tarde, devido a grandes cheias na época das chuvas. Os leões tomaram conta das construções abandonadas e o lugar tornou-se num grande atractivo turístico por muitos anos, conhecido com o nome de Casa de Leões.
Depois do término do contrato da Companhia de Moçambique, a gestão da Reserva passou para as mãos do governo colonial. Sr. Alfredo Rodrigues tomou os primeiros passos oficiais com o objectivo de banir as caçadas e de estabelecer um negócio turístico viável. Em 1951 começaram outras construções de uma nova administração e acomodações no Chitengo, incluindo um restaurante e um bar. Até aos finais de 1950 mais de 6000 turistas visitavam anualmente a Reserva e o governo colonial tinha atribuído a primeira concessão de turismo no Parque. Em 1955, a campanha dos criadores produziu frutos quando a Divisão dos Serviços de Veterinária assumiu a responsabilidade da gestão da fauna bravia em Moçambique. Em 1960, o governo português decretou a Reserva a como Parque Nacional.

O Parque Nacional: 1960-1980

O novo Parque deu passos significativos de melhorias, com a construção de estradas e outras infra-estruturas. Entre os anos de 1963 e 1965, as instalações de Chitengo foram alargadas para acomodar pelo menos 100 turistas. Nos finais dos anos 60, Chitengo já tinha duas piscinas, um bar e um clube nocturno, um restaurante com capacidade de servir entre 300-400 refeições por dia, uma estação de correios e uma estação de abastecimento de combustível, uma clínica para urgências, e uma loja para vender objectos artísticos locais.
Igualmente nos finais dos anos 60, realizaram-se os primeiros estudos científicos básicos do Parque, conduzidos por Kenneth Tinley, um ecologista sul-africano. Na primeira investigação, trazida a antena, Tinley e sua equipe registaram cerca de 200 leões, 2200 elefantes, 14 000 búfalos, 5500 bois-cavalos, 3000 zebras, 3500 pivas, 2000 impalas, 3500 hipopótamos e manadas de centenas de elandes, pala-palas e gondongas.
Tinley também descobriu que muitas pessoas e muita vida selvagem residente dentro e nos arredores do Parque Nacional, depende de um rio, o Vunduzi, que nasce nas vertentes da montanha de Gorongosa. Porque a montanha estava fora das linhas fronteiriças do Parque, Tinley propós a expansão das fronteiras, de maneira a incluir a montanha por ser o elemento chave do Grande Ecossistema da Gorongosa, com cerca de 8.200 quilómetros quadrados. Ele e outros cientistas e conservacionistas ficaram desapontados em 1966 quando o governo reduziu a área do Parque para 3.770 quilómetros quadrados.
Simultaneamente, Moçambique estava no meio da guerra de libertação iniciada em 1964 pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Felizmente a guerra teve pouco impacto no Parque Nacional da Gorongosa até 1972, quando uma Companhia Portuguesa e membros da Organização Provincial de Voluntários se instalou no Parque para protegê-lo. Nessa altura não foram causados muitos danos, embora alguns soldados caçassem ilegalmente. Em 1976, um ano depois de Moçambique estar independente de Portugal, uma visão do Parque e os adjacentes do delta do rio Zambeze contava com aproximadamente 6.000 elefantes e cerca de 500 leões.

A Guerra Civil: 1981-1994

Ameaçada pelo novo governo populista e Marxista do país vizinho, a África do Sul começou a financiar e armar uma tropa de rebeldes para desestabilizar Moçambique. Em Dezembro de 1981 os soldados da Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) atacaram o acampamento de Chitengo e raptaram muitos dos seus trabalhadores, incluindo dois cientistas estrangeiros.
A partir daquela data, a violência dentro e nos arredores do Parque aumentou. Em 1983, o Parque foi encerrado e abandonado. Durante nove anos, o Parque Nacional foi palco de frequentes batalhas entre as forças opostas. A violenta batalha terrestre, e os bombardeamentos aéreos destruíram todas as construções. Os grandes mamíferos do Parque sofreram terrível destruição. Os dois beligerantes dizimaram centenas de elefantes para retirar o marfim, que vendiam para obtenção de mais armas e outros equipamentos bélicos. Soldados famintos mataram muitos milhares de zebras, bois-cavalo, búfalos e outros animais ungulados. Os leões e outros grandes predadores foram mortos em caçadas desportivas ou morreram por fome por causa do desaparecimento das suas presas.
A guerra civil terminou em 1992, mas a caça furtiva no Parque, principalmente por caçadores vindos da Beira, continuou por mais dois anos. Por essa altura, as enormes populações de mamíferos de grande porte, incluindo elefantes, hipopótamos, búfalos, zebras e leões, já tinham sido reduzidos em 90% ou mais. Felizmente, os espectaculares pássaros do Parque saíram relativamente ilesos.

A Recuperação: 1995-2003

Os primeiros esforços para reconstruir as infra-estruturas do Parque Nacional da Gorongosa e restaurar a fauna bravia começaram em 1994 quando o Banco Africano de Desenvolvimento (ADB) iniciou trabalhos num plano de reabilitação a longo termo. Nos anos seguintes, o Parque abriu portas para os turistas e a União Europeia, com a ajuda da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), lançou um programa de emergência para acabar com a caça furtiva e remover as minas. Cinquenta novos trabalhadores, muitos deles antigos combatentes, foram contratados. Baldeu Chande e Roberto Zolho, ambos trabalhadores do Parque antes da Guerra, regressaram para assumir a liderança, Chande como Director do Programa de Emergências e Zolho como coordenador da fauna e administrador.
A iniciativa do Banco Africano de Desenvolvimento, também conhecida como Projecto de Gestão de Recursos Faunístico e de Florestas, foi lançado em 1996, com o apoio do governo de Moçambique. Nos cinco anos seguintes, a iniciativa do Banco Africano de Desenvolvimento caça furtiva reduziu significativamente: 100 quilómetros de estradas e picadas foram abertas e cerca de 80 fiscais foram treinados.

A Restauração: 2004-Presente

Em 2004, o Governo de Moçambique, e a Carr Foundation acordaram um plano de trabalho conjunto para restaurar as infra-estruturas do Parque Nacional da Gorongosa, restaurar a população da fauna e da flora e incentivar o desenvolvimento da economia local, deste modo abrindo uma nova e importante página na história do Parque Nacional da Gorongosa.
Um dos primeiros e mais significativos indicadores desta mudança apareceu em 2006 com a conclusão dos 6000 hectares (60 quilómetros quadrados) do santuário para fauna bravia e a introdução de búfalos e bois-cavalos no ecossistema.
Dado o sucesso deste projecto inicial de três anos, o Governo de Moçambique e a Carr Foundation anunciaram em 2008 a assinatura de um acordo para restaurar e co-gerir o Parque nos próximos 20 anos.
Em Julho de 2010, o Governo de Moçambique decidiu alterar os limites do Parque Nacional da Gorongosa e incorporar a Serra da Gorongosa (acima dos 700 metros) dando assim satisfação a uma velha aspiração que tinha sido apresentada nos anos 60 pelo então ecologista do PNG, Kenneth Tinley. Nesta data foi também estabelecida oficialmente uma zona tampão com cerca de 3.300 quilómetros quadrados.

Ecologia

Geologia

O vale é igualmente impressionante, uma secção de 4.000 quilómetros quadrados do famoso sistema do Vale do Rift Oriental, uma das características geológicas mais conhecidas de África que se estende ao longo da África Oriental, desde a Etiópia até à região Central de Moçambique. Grandes deslocações de placas tectónicas iniciaram a sua formação cerca de 30 milhões de anos atrás. Outras deformações, saliências e reentrâncias da crusta terrestre, durante milhares de anos modelaram os planaltos por ambos lados e a serra a Oeste. O clima tropical de savana de Moçambique, com um ciclo anual de períodos húmidos e secos, constitui mais um outro factor para a equação complexa da biodiversidade: uma mudança constante de humidade nos solos que se vai alterando à medida que os solos se vão elevando em relação ao nível das águas do mar. A escassos 21 quilómetros da Serra, o vale, situado a 14 metros sobre o nível das águas do mar, recebe menos de metade da precipitação daquela.

Hidrologia

O Parque Nacional da Gorongosa protege um vasto ecossistema bem definido, modelado e alimentado pelos muitos rios que correm para o lago Urema. O rio Nhandunguè, por exemplo, atravessa o Planalto do Baruè no seu percurso normal para o vale. Os rios Nhanduè e Mucombezi entram no Parque vindos do Norte. A Serra da Gorongosa contribui com o rio Vunduzi. Muitos riachos e canais entram no Parque vindos do Planalto de Cheringoma. Todos aqueles rios formam a Bacia do Urema, com uma área aproximada de 7.850 quilómetros quadrados.
O lago Urema situa-se a meio do vale, a cerca de três quartos do caminho para baixo a contar da fronteira norte do Parque. O Rio Muaredzi, que corre desde o planalto de Cheringoma, deposita sedimentos perto do escoadouro do lago, desacelerando a sua drenagem. Este “tampão” leva a que o lago Urema se expanda grandemente na estação das chuvas. A água que consiga passar este cone aluvial prossegue através do rio Urema, deságua no Pungué e por fim no Oceano Índico. Na estação das chuvas quando há inundações, a água invade o vale e as planícies, cobrindo cerca de 200 quilómetros quadrados de terra, em anos piores. Durante algumas estações secas, as águas do lago chegam a encolher para o tamanho de 10 quilómetros quadrados. A expansão e retracção constante das águas nestas terras baixas, por entre uma manta de retalhos de savana, floresta e bosques cerrados, cria um complexo mosaico de pequenos ecossistemas que contêm mais abundância e diversidade de vida selvagem do que qualquer outra zona do Parque.

Vegetação

Os cientistas identificaram três tipos principais de vegetação que sustentam a riqueza da fauna bravia do Ecossistema da Grande Gorongosa. Setenta e seis por cento é constituída por savanas--uma combinação de capim e arbustos que favorece a irrigação dos solos. Catorze por cento é de florestas—diferentes tipos de bosques e matas. O resto é capim sujeito a duras condições sazonais, que impedem o desenvolvimento de árvores. Todos os três tipos encontram-se ao longo de todo o sistema, com muitos subtipos e variedades.
A Serra da Gorongosa tem florestas tropicais, capim de montanha, floresta de galeria ao longo dos rios, e matas e savanas em altitudes mais baixas. Os dois planaltos estão cobertos de um tipo de savana de copa fechada, comum na África Austral, de nome “miombo,” palavra de origem Swahili que designa a árvore predominante, da genus brachystegia. Cerca de 20 % do capim do vale está debaixo de água durante grande parte do ano.

A Serra da Gorongosa

O impacto humano mais sério do ecossistema da Grande Gorongosa acontece na Serra da Gorongosa. Mais de 2.000 pessoas vivem nela. Pelo menos 500 famílias vivem nas íngremes encostas, acima dos 700 metros de altitude, em zonas de montanha inexplorada que, até muito recentemente, eram consideradas pela tradição local sagradas e de acesso proibido. Na serra, a agricultura itinerante e o uso incontrolado da terra estão a destruir as florestas a um ritmo alucinante. Se esta actividade continuar, os rios Vunduzi e o Muera - elementos-chave para a vida no vale – serão reduzidos a cursos de água inúteis e poluídos. Muitas das espécies raras ou ameaçadas, incluindo algumas espécies endémicas, irão perder-se. As áreas de floresta desbastadas na Serra da Gorongosa levarão séculos a recuperar.

Vida selvagem

A Gorongosa é habitada por uma impressionante diversidade de animais e plantas – alguns dos quais não se encontram em mais lado nenhum no mundo. A riqueza da biodiversidade cria um mundo complexo onde animais, plantas e pessoas interagem. Dos mais pequenos insectos ao mamíferos maiores, cada um desempenha um papel importante no ecossistema da Gorongosa.
Apesar de muita da vasta população herbívora do parque ter sido dizimada durante os anos de guerra e de caça furtiva, quase todas as espécies naturalmente características da região, incluindo mais de 400 tipos de aves, acabaram por sobreviver. Com uma gestão efectiva e reintrodução de espécies-chave, as populações de vida selvagem voltarão a contar-se segundo valores naturais e ajudarão a restaurar o equilíbrio ecológico do parque.

Turismo

Acampamento de Safaris do Chitengo

Foi construído pela primeira vez em 1941, acolhia milhares de turistas oriundos de todo o mundo até 1983, quando a guerra civil o encerrou e, só reabriu em 1995.

A Serra de Gorongosa

A Serra de Gorongosa é considerada um lugar sagrado pelas populações locais, erguendo-se bem acima dos 1800 metros. Tem uma área de cerca de 600 quilómetros quadrados e são parte dos seus rios e riachos que sustentam a fauna bravia do Parque. O guia da sua excursão mostrar-lhe-á as diferentes florestas da Serra, plantas raras e endémicas (incluindo muitas orquídeas), pássaros, e as cascatas.

Ver também

Ligações externas

Referências

  1.  Ampliada protecção de recursos faunísticos. Sociedade do Notícias S/A. Página visitada em 22 de Julho de 2010.
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Saudações do

1 de Janeiro de 2013